Texto de autoria de Luiz Murilo Verussa Ramalho, servidor do Ministério Público Estadual, residente em Ponta Grossa.
Nós estamos por toda parte.
Escrevesse eu um texto com o tema “corrida de rua” e o mandasse à Academia de
Letras local, preencheria com tranquilidade o quesito “possuir identidade com
os Campos Gerais” ainda que não citasse nominalmente nenhuma de suas cidades,
ruas ou parques – se discorda, olhe pela janela.
Estamos por toda parte e a
qualquer horário. Numa semana de lascar, que transformou em borralho todos os
minutos úteis, e vinha se aproximando a primeira meia-maratona que eu faria –
desejando terminá-la correndo, não de carona com os paramédicos – pela primeira
vez corri de madrugada. Oito irresponsáveis quilômetros entre Olarias e o
Jardim Carvalho. Próximo ao Parque Ambiental, encontrei um desconhecido que
também treinava e que na cumplicidade das horas mortas saudou-me com um “salve,
guerreiro”.
Na pista do Jardim Carvalho,
a aquosidade amarela da iluminação pública irradia tropegamente pelo cenário o
aspecto de um amanhecer eterno; as cercanias do Parque dos Ingleses, ao
contrário, parecem inaugurar um tempo inédito, cuja madrugada é mais funda, uma
hora adicional cravada entre as quatro e cinquenta e cinco e as cinco da manhã; o
Parque Linear remonta à kenopsia, que o “Dicionário das Tristezas
Obscuras” caracteriza como a melancolia dos lugares vazios que já foram
frequentados; o Lago de Olarias faz pensar numa excursão ao além ou a outro
planeta mais distante do sol, dado o frio que emana das pedreiras próximas
enquanto a escuridão cobre as águas com seus variados graus de breu.
Sempre há pelo percurso algum outro desvairado
correndo na comunhão daquela fome, daquele hábito, daquele vício que nos leva
adiante, na pista e além. Houve um ano em que corri mais de mil quilômetros no
período noturno; não que seja hábito de guerreiros, como bradou meu anônimo
colega, mas apenas o curativo e a antecipação de outras corridas e correrias,
aquelas que se travam de dia e, justamente por isso, nelas há mais trevas,
muitas mais.