segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Time bom pra cachorro

 

Texto de autoria de Rosicler Antoniácomi Alves Gomes, Professora de Português e Inglês, Ponta Grossa.

Sentado com a postura ereta numa das cadeiras da seção de sócios, os olhos vivos e os ouvidos atentos a qualquer movimento no campo, ele parece diferente dos demais torcedores pelo fato de não expressar palavra. Nada a dizer: nem palavrão ou xingamentos para o juiz, nem palavras de incentivo ou aplauso pelas jogadas.

Ninguém mais se importa com ele ali sentado, acostumados com sua presença. É como um talismã de sorte, desde que começou a frequentar aquela seção reservada das arquibancadas.

Operário Ferroviário Esporte Clube, o Fantasma da Vila, estava em excelente campanha. Naquele ano sagrou-se campeão paranaense da primeira divisão.

Dos torcedores que assistiam não só as partidas em casa, mas também aos treinos, ele era o mais ansioso à espera da entrada em campo dos guerreiros alvinegros. Nesse momento saltitava, como se uma corda o prendesse para que não desandasse arquibancada abaixo para entrar em campo também, e correr atrás da bola.

Alguns torcedores, no início, achavam estranha sua presença, afinal, ele era um "diferente" e isso incomodava. Tentaram até bani-lo, impedir que adentrasse ao Estádio Germano Krüger em dias de partida em casa.

Nada o impedia. Estava sempre lá. De início, sorrateiramente, ocupando lugares discretos, andando de cabeça baixa por entre os demais torcedores, evitando encarar, para passar despercebido.

Mas a boa campanha do Fantasma, aos poucos, começou a ser associada à sua presença, e ele começou a ser alvo de agrados, para que se sentasse junto a esse ou aquele grupo de torcedores. Virou celebridade. Saiu no jornal, no youtube, nas redes sociais.

Todos o queriam por perto, até que foi parar na seção reservada dos sócios. E entre os torcedores mais empenhados, lá estava, em todas as partidas em casa, um belo vira-lata de pelos arruivados, postura ereta na cadeira, atento ao jogo.

É o Cachorro do Fantasma, baita torcedor de um time bom pra cachorro. Ser torcedor do Fantasma rendeu-lhe agrados, comida farta, até cervejinha. E se não fosse um vira-lata de boa estirpe, que ama sua liberdade, não teria escolhido por matilha a carismática torcida alvinegra, que o acolheu como a um igual, apesar da diferença.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Simples e bom

 

Texto de autoria de Rosana Justus Braga, revisora, Curitiba (natural de Ponta Grossa).

Publicado no Correio Carambeiense em 21/11/2020.

As férias eram na casa dos avós, um retorno feliz ao ninho. O alvoroço começava logo na chegada, as saudades se expandindo, os avós se esmerando, os primos surgindo de todo lado. Sem falar nas tias-avós, a história não seria perfeita sem elas.

Do outro lado da rua, havia um casarão centenário que desafiava o tempo e meus temores.  Era de esquina, assobradado, as janelas altas dando direto na calçada. Viviam lá as últimas sobreviventes de uma família de raízes, a velha viúva e sua única filha solteira.

A tal filha, que já passava bem dos cinquenta, tinha por gosto aterrorizar as crianças.  Seu prazer era ocultar-se por trás das pesadas cortinas de veludo e espiar por entre as dobras, até ser notada.

O terrível é que ela se fantasiava, ocultava-se sob máscaras, perucas, chapéus, transformava-se, enfim, para despertar nossos piores medos.

Ora uma bruxa esquivando-se por entre os panos; ora um Papai Noel extemporâneo, espiando pelas frestas; ou ainda uma Branca de Neve dos piores pesadelos, menina-velha, aparecendo nesta ou naquela janela, rindo por trás da vidraça. Correria e gritos de pavor.

A vizinha usava de astúcia e só aparecia assim, transfigurada, de vez em quando; em geral, quem costumava estar na janela era ela própria, dona Adelaide, o riso largo de matrona italiana, confundindo, deliciada, o bom senso das crianças. 

Por isso, passávamos de viés, sempre pelo outro lado da rua, cheias de um medo curioso, o olho querendo ver, o medo dificultando, o casarão da esquina cristalizando-se na memória para sempre.

Voltar à cidade natal sempre teve sabor de novidade para mim. A mais deliciosa era o apito do sorveteiro descendo a rua. Era o tempo de correr e buscar uns trocados com a avó, depois escolher, creme ou framboesa? Dúvida atroz. Sempre escolhia um, pensando no outro. No dia seguinte, invertia, sábia solução.

Tudo simples e bom. O tio Tonico e sua carpintaria, tia Antônia e o cachorro Veludo, tia Carmelina com seus passes milagrosos, a vó Sotinha e os chinelinhos de pano, a fábrica de fogos, o mendigo Zorico.

Quantas lembranças mais poderiam brotar deste saco sem fundo da memória? Melhor não cutucar a onça com vara curta, diria o avô com seu conhecimento da vida.

E eu, boa aluna que sempre fui, trato de fechar depressa esse bornal de surpresas, antes que a onça acorde e meu avô venha me dizer, na calada da noite:

─ Eu avisei!...

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Máscaras aqui e acolá

 Texto de autoria de Murillo Emanuel de Lara, estudante de Administração da UEPG, estagiário da Prefeitura de Ponta Grossa.

Postado no Portal aRede em 18/11/2020.

            Mais um dia normal na vida do Seu Joaquim. Normal na medida do possível. Com quase um ano de pandemia e de máscaras no rosto ─ Deus, como as odiava ─, já fazia algum tempo que o Seu Joaquim não via o parque recheado de crianças e os bares da vizinhança cheios com seus velhos amigos que se reuniam toda sexta para tomar aquela cervejinha em um copo americano, mas ele ia sobrevivendo como podia, ele e a Dona Marta, sua esposa.

            Nesse dia em específico, ele saiu de casa para ir ao centro da cidade pagar seu boleto da internet ─ no mês anterior haviam cortado sua internet, ele não queria que isso se repetisse, não hoje ─, mais tarde Teodoro e Sampaio iriam fazer uma live no YouTube e ele não queria perder, justo agora que tinha aprendido a “lidar” nessas coisas. Seu filho, Roberto, estava viajando e não poderia pagar seu boleto e a sua filha mais nova, Aline, estava passando o final de semana na casa do novo namorado, um tal de Jonatan, ou qualquer coisa parecida. Seu Joaquim não gostava dele e não aprovava esse namoro. Seguiu seu caminho em direção ao ponto de ônibus, até que viu a Dona Elizabeth, sua vizinha há anos, sempre se reuniam para tomar um chimarrão e falar mal dos vizinhos que acabaram de se mudar para o bairro. Ao avistá-la, não hesitou em falar: ─ Bom dia, Dona Bete, bão? Como está tudo? ─, ela abaixou a cabeça e passou reto por ele. ─ Deve ter brigado com o Seu Alfredo ─, pensou.

            Seguiu seu caminho e procurou não pensar sobre o assunto. Chegando ao ponto de ônibus, que estava cheio, notou algumas pessoas olhando torto para ele e algumas se afastaram. ─ As pessoas não têm mais respeito com os mais velhos como antigamente ─, matutou aborrecido.

            O ônibus chegou, todos entraram e quando chegou a vez do Seu Joaquim entrar, ouviu: ─ Sinto muito, senhor, mas não pode entrar, não ─. Ele poderia aturar desaforo dos vizinhos, mas do motorista de ônibus já era exagero. Retrucou: ─ E quem é você para dizer se eu posso ou não entrar? ─, foi só então que ele ergueu a cabeça e olhou para o rosto do motorista e notou que ele usava uma mascara azul com um bordado escrito “VCG” e percebeu o que estava acontecendo.

            Ele havia esquecido a sua máscara na cabeceira da cama.


Criança diz cada uma!

 

Texto de autoria de Sueli Maria Buss Fernandes, Professora aposentada, Ponta Grossa.

Publicado no Correio Carambeiense em 14/11/2020.

Meu filho aprendeu a ler precocemente. Aos três anos copiava o nome do jornal O Estado do Paraná, que era lido pela família, usando letrinhas de plástico, seu brinquedo favorito. E daí para a leitura e escrita foi um pulo.

Passeávamos pela Praça da Catedral quando ele me chamou, ansioso para que eu visse algo que lhe chamara a atenção: ─ Veja, mãe! Aqui é a sede do Santos! ─ (referindo-se ao time de futebol). Aproximei-me do monumento à Bíblia, em cuja placa havia a inscrição “Sêde santos...”

Recentemente a neta de cinco anos de uma amiga foi visitá-la, mas não saiu do carro, devido ao coronavírus ainda circulante e gritou de longe: ─ Vó, não posso te abraçar porque estou “quarentada” ─. Ela transformou o substantivo em verbo e conjugou-o usando o tempo verbal adequado.

Nossa primeira reação é rir do fato, não há como evitar, mas depois abraçamos essas criaturinhas tão pequeninas e vemos o quanto são inteligentes.

Num passeio rural às margens do Alagados, as crianças estavam correndo por toda a redondeza. A bela paisagem, os campos, longe do rio, nenhum perigo de acidente, o mundo lhes pertencia. Não havia divisórias entre os terrenos e elas foram parar na garagem de um vizinho. Depararam-se com uma carreta usada para carregar barcos, leram a placa e vieram com a pergunta na ponta da língua: ─ Pai, onde fica a cidade de Reboque?

Elas ultrapassam a fase dos porquês mas continuam surpreendendo com suas perguntas desconcertantes e este é o vetor de sua aprendizagem não formal, empírica, que servirá para ampliar horizontes e prepará-las para o aprendizado acadêmico.

Os netos de uma amiga moravam em apartamento e frequentemente visitavam a avó que vivia em uma casa. A cada visita a avó lhes dizia: ─ Vão brincar lá fora! ─. Um dia perguntaram à sua mãe: ─ Onde fica o “lá fora” aqui de casa, mãe?

Parece que elas têm o Livro dos Recordes na cabeceira, pois querem saber qual é o maior do mundo, qual é o menor do mundo... Um dia, conversando sobre o maior rio, meu filho quis saber qual era o menor rio do mundo: ─ Se tem o maior deve haver o menor. Não tem como saber ─, falei. Em seguida me surpreendeu perguntando: ─ Mãe, então qual é o maior médio do mundo?

Perguntam tudo o que desejam saber pois ainda não foram atingidas pelo prejudicial freio do constrangimento, inimigo do conhecimento.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Firmemente

 

Texto de autoria de Aline Sviatowski, estudante, Ponta Grossa.

Na rua do bairro de Uvaranas, caminha João. Com seu chapéu marrom inclinado em média uns vinte graus com o eixo do topo de sua cabeça, observa “de vesgueio” as casas e algumas já possuíam decoração natalina, causando essa sensação de estranhamento típica de 2020. Sua máscara facial começa a deslizar alguns milímetros para baixo em sua face. Aqueles milímetros imperceptíveis aos terceiros, porém que incomodam profundamente o personagem.

João sente a vontade de ajeitar sua máscara mais para a posição superior do rosto, porém lembra-se da mortalidade viral a que pode expor-se. “Enquanto não aparecerem o nariz e a boca, tudo certo”. No entanto, a sensação é comparável à meia que desliza lentamente pelo pé, em direção ao interior do sapato. Quanto mais lenta é engolida pelo calçado, maior é a agonia.

João, em seus setenta anos, jamais imaginaria um cenário em que respirar o levaria a contrair uma doença potencialmente mortal. E muito menos que o drama da meia engolida ganharia a proporção que ganha comparativamente à máscara facial. Em alguns cenários, o mundo perde o rumo por alguns instantes. E ele já havia visto isso acontecer algumas vezes durante sua vida. “O bom é que ele costuma recuperar o rumo”, pensa.

Após alguns minutos sucumbiu a ajeitar sua máscara, que estava quase no precipício do nariz. “João!”. E ele pulou, como se ouvisse assustado uma materialização de sua consciência o repreendendo por tocar no rosto. Era seu amigo, Carlos. Não via Carlos há oito meses, nem com ele tomava café, ou cerveja. Não sabia como estava sua família, nem como tinha sido sua cirurgia de vesícula.

Havia ele conseguido a indenização judicial que esperara por longos dez anos? Ele continuava jogando na loteria? Será que leu o livro que sua filha o presenteou? Como estavam seus netos, que antes pediam bala de morango toda vez que ele ia os visitar?

Ao invés, contudo, trocaram um típico aceno. João levantou seu braço, em um ângulo de noventa graus. Com os dedos esticados para o céu, o gesto típico do cumprimento que limita as palavras a um resumido diálogo que parece tudo dizer.

“Firme? Firme!”.

Aparentemente a família, a vesícula e os netos estavam todos bem. E, nesse momento, estar bem é estar saudável fisicamente. Estar vivo, sem sequelas e sem o vírus.

E assim seguem os ponta-grossenses – tal qual a humanidade. Continuam seguindo. “Firme”,  “Firmecozuque” e, sobretudo, firmemente ante qualquer adversidade.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

A Bomboniere Aurora

 

Texto de autoria de Carlos Mendes Fontes Neto, Engenheiro Civil, Ponta Grossa.

Publicado no Diário dos Campos em 04/11/2020, lido na CBN Ponta Grossa em 11/11/2020, postado no Portal aRede em 25/11/2020.

Quem se lembra da Bomboniere Aurora?  Ficava próxima do Campus Central da Universidade, lá pelos idos das décadas de 70, 80 do século passado. Bem ali onde a Júlio de Castilho cruza a Cel. Bittencourt.  Local de matar o tempo entre as aulas, e de quebra atrair a vizinhança que ali achava socorro para alguma necessidade de última hora.

Era um prédio térreo de esquina, nos moldes antigos, com mansardas no telhado, e com uma pequena panificadora tocada pelo marido da proprietária, D. Mafalda. Apresentava um balcão com gêneros de primeira necessidade, doces, chocolates e num canto um charmoso balcão revestido de fórmica marmorizada, cujos bancos lembravam drugstores de filmes dos anos 50, onde eram servidos lanches. 

E ali na pontinha do balcão, sempre uma pilha do Ponta a Ponta, misto de folheto literário e agenda das lides culturais, onde navegavam talentos que despontavam na escrita local, de circulação gratuita. Afinal a Bomboniere também era cultura.

A Bomboniere Aurora reinava soberana na vizinhança, nessa época ainda pacata. Vizinhança composta de famílias e algumas repúblicas de estudantes. Alguns personagens, bastante peculiares, compunham esse entorno. Tais como a velhinha chamada por todos de D. Boneca, mesmo que em nada lembrasse uma, que morava de frente para a Bomboniere e podia sempre ser vista controlando o movimento. Pouco acima, na Cel. Bittencourt, a casa de D. Jovina, simpática senhorinha que sofria com grandes nevralgias e usava sempre uma manta de lã enrolada na cabeça, pois achava que isso atenuava os sintomas. Comandava um pensionato para estudantes, abrigando quase exclusivamente estrangeiros. Eram bolivianos, peruanos, paraguaios, salvadorenhos, todos irmanados sob o mesmo teto. Mais acima, em uma casa de fundos, uma circunspecta família ucraniana de Prudentópolis. Na quadra de trás da Bomboniere, uma austríaca de Viena instalada numa casa paranista, cuja estranha característica era ter sempre as janelas venezianas cerradas, ao lado da Luterana, onde se ouvia às vezes o ensaio em alemão do coral.

Quase uma Nações Unidas nos Campos Gerais!

O tempo correu e a Bomboniere não existe mais. No seu lugar, mais um espigão! A casa paranista cedeu lugar a um terreno baldio, D. Boneca não espia mais o movimento, os estudantes estrangeiros há muito retornaram aos seus países, engenheiros, farmacêuticos, dentistas... Quem passa hoje pela esquina onde ficava a Bomboniere não imagina a riqueza humana e a pluralidade que por ali existiu.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Café em copo americano tem gosto de corrimão de casa de polaco

 

Texto de autoria de Aline Sviatowski, estudante, Ponta Grossa.

A casa de madeira, em meio à selva paranaense de sobreviventes araucárias, exalava odores com notas amadeiradas e ecoava os sons do ovo que espirrava ao ser frito. Um gavião gritava na janela acima do telhado. Assim como gritava em torno da casa há intermináveis três horas.

A acústica da casa de madeira deixava o “canto” impregnar todas as paredes e estremecer os sonhos dos moradores. O segundo andar da casa sempre era, ainda, inundado pelos cheiros alimentícios de temperos abrasileirados; mas, principalmente, de alho e cebola. Refogados no óleo quente, até que transparentes e dourados estivessem prontos para fundirem seus aromas nos sabores.

Em casa de polaco, tudo tem: passarinho disputando terreno consigo mesmo, cachorro latindo para formiga, formiga roubando as últimas migalhas, repolho colhido da horta do vizinho e café com gosto de “pão-chinelo”, ou no mínimo, de corrimão.

Sofia descia as escadas, encantada pelos cheiros. O disco de vinil rodava rangendo e cantando. As tábuas do chão resmungavam ante os passos.

A casa vibrava os sons do dia nascente, uma canção antiga gravada na superfície do long play e anedotas sobre acontecimentos triviais. Ela também absorvia o cotidiano. O subir e descer constantes da escadaria ficavam, então, gravados no corrimão. Assim como os sons, no vinil. O movimento, na madeira. Também o café, moído recentemente, absorvia toda a atmosfera sempre viva de uma casa interiorana de descendentes poloneses.

Barulho oco de copo de vidro batendo levemente na superfície da mesa. Os dedos de Sofia envolvem o copo americano, que é preenchido com café puro. Simultaneamente, o ovo frito pula para o seu prato de sobremesa (que anarquicamente é utilizado para todo tipo de refeição). Gema dura, como sempre. Os olhos? Fechados, para degustar o gosto de corrimão: piadas constantes, resmungos de braveza diante da fome, cansaço de um dia laborioso, beijo da sobrinha, lambida de cachorro, cheiros vindos do forno, briga de irmãos, sapo na varanda, “chinelada” de mãe, manhã de Natal.

Nada é mais brasileiro do que um copo americano, repleto de histórias miscigenadas.

Time bom pra cachorro

  Texto de autoria de Rosicler Antoniácomi Alves Gomes, Professora de Português e Inglês, Ponta Grossa. Sentado com a postura ereta numa das...