segunda-feira, 9 de março de 2020

Trocadilho


Texto de autoria de Rosana Justus Braga, revisora, Curitiba (natural de Ponta Grossa).

Publicado no Portal aRede em 01/04/2020, lido na Rádio CBN Ponta Grossa em 02/06/2020.

Meu avô tinha comércio em Monjolinho, na época um pequeno vilarejo quase desconhecido de quem vivesse na capital.
Tratava-se de um armazém, daqueles que vendiam de tudo, de selas e arreios a finos tecidos, de espingardas e revólveres a quinquilharias domésticas, de conservas caseiras a ferramentas e pelegos, de atavios femininos a bornais de couro curtido. Sem falar nas tulhas repletas de cereais, as especiarias, o vinho de garrafão, o fumo de corda, as réstias de alho e cebola. E como pérola da casa, a cuca que minha avó trazia todas as manhãs, do forno para o balcão da loja.
Ali, também se vendia cachaça, o famoso dedinho de pinga que fazia a alegria de uns e a desgraceira de muita família de bem.
Assim que meu avô abria as portas, chegava a cuca quentinha, perfumada, revestindo o armazém de inusitado aconchego, um gosto de entrar ali e gastar um bocadinho de prosa, fartar-se de aromas e conversa fiada.
Pois nesse dia, minha avó cuidava da venda, enquanto o avô cochilava a sesta na varanda sombreada. Foi quando o caboclo chegou, cheio de maneiras, e quis ver os cachimbos à venda. A avó colocou a caixa sobre o balcão, já antevendo o que viria, e o sujeito deu de experimentar o fôlego de cada um, pacientemente, puxando o ar de um e outro com vontade, a boca murcha cheia de entendimento.   
Passados os dez pelo beiço entendido, escolheu, finalmente, o que melhor lhe parecera e mandou pendurar a despesa.  A avó, que a esta altura já gastara a paciência que tinha, disparou:
— Aqui não se vende fiado; se tivesse dito que não tinha com que pagar, o senhor não teria perdido o seu tempo, nem eu o meu...
Vexado, mas sem perder a galhardia, o caboclo desembaraçou-se como pôde da situação embaraçosa:
— A dona que me “descurpe”, fica o dito pelo não dito. O cachimbo, então, eu não levo, mas o pito eu levo.
Minha avó, a quem não escapavam as sutilezas da alma humana, deixou-nos esse precioso registro.

Fila de banco


Texto de autoria de Sueli Maria Buss Fernandes, Professora aposentada, Ponta Grossa.

Publicada no Portal aRede em 18/03/2020 e no Correio Carambeiense em 20/03/2021.

            Desejava conhecer o Parque Estadual de Vila Velha, sobre o qual havia lido em um folheto de turismo. Vila Velha, a cidade de pedra, a Lagoa Dourada e as impressionantes Furnas. Aproveitando o feriado de Carnaval, já que não sou apreciadora da folia momesca, desembarquei em Ponta Grossa. Depois daquele feriado prolongado, estive na agência de um banco da cidade. Havia várias pessoas na fila e mais clientes chegando. Muito calor naquele verão. Por coincidência o senhor de camisa azul à minha frente conhecia o que chegou logo depois de mim, e iniciaram uma conversa com um cumprimento ao recém-chegado.
            — Oi, Toninho. Bão?
            E o outro respondeu:
            — Tudo nos trinques. E você, caboco véio, o que anda fazendo da vida?
            E eu, entre os dois clientes, não podia deixar de ouvir o diálogo, percebendo, pelo palavreado, que ambos eram da região. Ansiava que a fila fluísse mais rápido. E o calor aumentando...
            — Quanto mais eu rezo, mais assombração aparece! Você conhece a minha filha Zélia, né? Aquela magrinha, raspa de tacho?
            — Aquela que tem o nome da avó?
            — Não! A que tem o nome da minha sogra é a Filó. Está morando fora. A Zélia tem o nome daquela escritora da Bahia. Frescura da minha mulher. Coisa de quem não tem mais o que inventar. Diz que é homenagem.
            — Mas o que houve?
            — Um sobrinho da minha mulher veio do interior passar o feriado aqui em casa. E ontem eu levei a mulher, o piá e a Zélia para almoçar fora, num restaurante por quilo. A Zélia pega um pouco de farofa, duas folhas de alface e umas vinas e fica satisfeita. Sempre foi assim. Mas o sobrinho... Rapaz!!  Fez um prato tão grande que eu pensei que o piá estivesse se preparando para hibernar.
            — E daí, homem?
            — Quando fui pagar a conta, deu mais de cenzão! Acredita numa coisa dessas?! Gastei tudo o que eu tinha no bolso.
            — Não quis usar o cartão de crédito?
            — Eu nem tenho porque não me acostumo com essas coisas modernas. Hoje vim aqui buscar um dinheirinho pra semana e também para a passagem de ônibus. Quero despachar o piá pra casa dele antes que chegue o próximo domingo. Tá loco!
            O painel eletrônico anunciou o número da senha seguinte: 138. Antes de o senhor de camisa azul dirigir-se ao guichê, ainda se virou para o amigo e desabafou:
            — Tá vendo o número da senha? Foi exatamente este o preço que eu paguei no restaurante. É só comigo que essas coisas acontecem!
            E, numa marcha decidida, desapareceu atrás do biombo.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Casa do índio


Texto de autoria de Marivete Souta, Professora, Ponta Grossa.

Postada no Portal aRede em 04/03/2020, publicada na Correio Carambeiense em 20/02/2021.

É mais um dia de trabalho na mesma escola que me espera todas as manhãs. Nesse dia, a pressa não me acompanha e posso ir observando o que há no percurso tão curto entre minha casa e o local onde trabalho há tantos anos.
 Meu olhar segue percorrendo o entorno das ruas, passo pelo cemitério São João e penso no quão sou abençoada por poder respirar esse ar fresquinho que enche meus pulmões numa manhã cheia de nuvens, anunciando a música que mais gosto: o som da chuva. As poucas árvores que há em frente às casas já estão desfolhando para deixar espaço para o nascimento de novas flores.
Ao lado da escola uma casa me espia todos os dias, mas hoje ela me chamou para conhecê-la.
É uma casa desbotada pelo tempo, decrépita, a sujeira impera em todas as extensões que meus olhos alcançam. Percebo a fuligem, sinais que ficaram de um incêndio que ocorrera ali. A causa foi uma fogueira feita pelos esporádicos moradores que têm como cultural essa prática. O lixo se acumula por todos os lugares e o odor é desagradável, demonstrando que não há condições básicas para abrigar os fortuitos moradores.
 A Casa do Índio – alcunha que tem sua origem devido à serventia que a casa tem -, apesar de seu aspecto reprovável, é a moradia temporária de indígenas que vêm a Ponta Grossa para vender seus artesanatos.
 Hoje, pela janela da alma, vejo essa casa e me faço tantas perguntas que nunca fiz.  Tantas vezes passei por ela sem reparar que abriga fortuitamente cultura e história.
Penso no chimarrão que tanto gosto... O consumo de erva-mate fria ou quente vem dos indígenas, como também o preparo de alimentos com mandioca, milho e pinhão, como o mingau, a pamonha e a deliciosa paçoca, que me enche a boca de água, alimentos tão comuns em minha mesa.
Penso na guabiroba de sabor doce e suave. No maracujá azedinho, no butiá amarelinho. Capivara, jabuti, cutia, Goioerê, Candói, são palavras de origem indígena que me vêm à mente. Nós absorvemos sua língua, sua cultura, e esquecemos deles, de sua história, de sua contribuição cultural.
 Apesar de terem tentado apagá-los de nossa história, a cultura desse povo tão sofrido pela quase dizimação, permanece viva. É uma ideia errada pensar que são um povo atrasado e primitivo, pois onde há um indígena há cultura. O que se poderia fazer por eles? Creio que estaremos dando o primeiro passo quando pararmos não apenas para olhar, mas para enxergar.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

As coisas

Texto de autoria de Rosana Justus Braga, revisora, Curitiba (natural de Ponta Grossa).

Publicada no Portal Clic Navegantes em 01/03/2020, postada no Portal aRede em 11/03/2020, lida na CBN Ponta Grossa em 18/08/2020, publicada no Correio Carambeiense em 26/12/2020.

Olho em volta e estou cercada de coisas. Imprescindíveis, eu diria.
Esta poltrona, sem dúvida, me é indispensável, os móveis e estes objetos todos também o são; os quadros... ah, como vestem bem as paredes do meu mundo; os livros a despencar das estantes são vozes que me falam; os adornos contam um pouco das histórias que foram. E este abajur, então, quantas sombras dissolveu no fluxo sem refluxo das horas.
Precisei de todas estas coisas para chegar até aqui. Foram-me essenciais, chego a pensar. Como seria viver sem elas?
É que reflito, neste instante, sobre desapego e impermanência, fruto de leituras feitas e refeitas que hoje despertam e vêm me cutucar o espírito. Conceitos incontestáveis, mas quão distantes das aspirações humanas.
Não, não desatamos vínculos com facilidade; olho para a mesinha de canto e é como se ela me contasse um pouco de tudo que observou, caladamente, de seu ponto de vista. E o pequeno vaso que ela sustenta tem também suas teias e me aprisiona; é de um verde pálido, ornado com filigranas de prata, sugere mistérios do Oriente e me remete a tudo que não sei.
Gosto da neutralidade das coisas, da cumplicidade que emanam, de seus olhos cegos. Estar entre elas é estar só e estar acompanhado. Não incomodam, não julgam, não aplaudem, não condenam. Testemunhas mudas que são, nada terão a revelar ao mundo além de seu próprio tempo.  
Faço meu inventário particular. Se pretendo desatar-me, urge saber de quê. Listo as prescindíveis, que são inúmeras, as banalidades que me cercam; ao lado, relaciono aquelas que não me podem faltar. Sobre elas é que devo praticar meus exercícios filosóficos.
Frágil criatura, parece que me falto se abro mão das coisas que gosto. Pura tolice, quero crer, a verdadeira alegria dispensa claros motivos, assim dizem os que sabem, os que venceram a luta contra os sortilégios da matéria.
Mister aprofundar as leituras se a pretensão é evoluir, porque só há, de fato, uma verdade: nós passaremos, mas as coisas... estas, ficarão.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Águas de junho


Texto de autoria de Fábio Antonio Gasparelo, Professor de Língua Portuguesa, São João do Triunfo.

Publicado no Portal aRede em 26/02/2020.

Parecia ser apenas a emoção da expectativa de uma semana que antecedia mais uma Copa do Mundo em nossas vidas. Mas a manhã de 8 de junho, mês do padroeiro de nossa cidade, reservava um dos capítulos mais tristes dos 124 anos de nossa história.
            Quando vi pela primeira vez a imagem dos estragos, veio a lembrança de um menino que aos cinco anos, no início dos anos 80, tinha assistido a um filme muito parecido. Ao lado de meu filho, coincidentemente com a mesma idade que eu tinha na época, revi fatos e imagens que imaginava nunca mais observar.
            É estranho como uma tragédia como esta desperta os mais diferentes sentimentos no ser humano. Primeiro, o da angústia, quando não se tinham passado duas horas da queda da cabeceira da ponte e várias pessoas já faziam filas no posto de combustível e outras corriam ao supermercado para garantir o estoque de água potável para o tempo do “isolamento” necessário.
            Depois, vem o sentimento da dor, ao vermos pessoas saindo de suas casas, sofrendo, desesperadas por não saberem o que lhes sobraria quando o pesadelo passasse e as águas baixassem.
            Por último, surge o sentimento que une os indivíduos depois da dor e do choque: a solidariedade. E foi aí que entendi o verdadeiro significado de uma frase do livro “A culpa é das estrelas”, do escritor John Green, em que ele fala pela boca de um de seus personagens que “o problema da dor é que ela precisa ser sentida”.  Quando sentimos a dor do outro, quando vemos que não há classe social, ideologia política ou status social que seja capaz de fazer-nos sentir a dor de forma diferente de nosso semelhante é que percebemos que só a ajuda mútua, o companheirismo e a solidariedade permitem que a existência neste mundo seja realmente válida.
            Fica a esperança de que não precisemos “sentir” a dor, de que não precisemos de tragédias repetidas para enfim enxergarmos que o mundo necessita cada vez mais de atitudes de respeito e de amor ao próximo, de gestos de solidariedade e de muita união!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

A gralha que queria ser menina


Texto de autoria de Alfredo Mourão de Andrade, ator e aposentado do Serviço Público Municipal de Ponta Grossa nas áreas de teatro e literatura.

Publicado nos portais aRede em 10/02/2020 e Clic Navegantes em 12/02/2020 e no Diário dos Campos em 04/03/2020, lida no programa CBN Esportes - Ponta Grossa em 14/04/20.


          Azulada acordou àquela manhã de outono cheia de ideias azuis. Manhã de nevoeiro nas terras do Paraná. Logo, logo, o sol mostrou sua carona brilhante, iluminando as araucárias e os Campos Gerais. Árvores gigantes de longilíneos braços abertos – querendo abraçar o sol - despertavam felizes da vida, pois as gorduchas pinhas marronzinhas, agarradas aos galhos mais altos, estavam prontas para explodir em deliciosos pinhões. Azulada grasnava... E sua cabecinha de gralha azul curiosa matutava: - “Pinhões!... Uauuuuu!... Gordinhos!... Gostosinhos!”
          Como sempre fazia, voou pelos campos ondulados a perder de vista, pelos capões de cambuís e suas frescas fontes d´água, onde a passarada se refrescava. De olho neles, a cobra d´água, que se escondia, onde também bebiam o lobo-guará, a onça pintada, o porco-do-mato, a jaguatirica...
          Um tufo de fumaça subia do Capão da Ponta Grossa, onde os últimos tropeiros tomavam perfumoso café mexido com tição de brasa, ovos mexidos, torresminho frito, virado de feijão com linguiça. – ‘Hum! Parecia delicioso!’
          Azulada parecia menina faceira naquela manhã de outono, saracoteando, bisbilhotando e cantando entre as árvores. Então se lembrou da doceira Nhá Maria, moradora do Vale do Tibagi, e seus tachos fervendo gostosuras de abóbora, marmelo, banana... – ‘Hum! É de lamber o bico!’
          A gralha de ideias azuis sonhava. Sonhava em ser uma chinoca. Vestido longo de babados – em tons de azul, é claro. Uma flor vermelha nos longos cabelos pretos. Só pra saborear aquelas gostosuras. Só pra dançar nas animadas festas de São João. E ouvir as histórias cabulosas contadas por Nhô Juca: o tesouro da Pedra Grande de Itaiacoca; Itacueretaba, a cidade que virou pedra; o fogo de Minarã que queimou quase tudo nos Campos Gerais; as casas assombradas; as visagens dos caminhos; os boitatás... Mas Tupã, o grande deus, reservou a ela outra missão: plantar a natureza do Paraná. 
          Entre idas e vindas, o sol se foi e a noite chegou. Hora de passarinho se proteger e não ficar perambulando por aí.  Mas Azulada era assim curiosa.
          E lá do alto do céu, onde brilhavam as Três Marias, Tupã divertia-se com aquela gralha tão especial, feito gente, cheia de histórias azuis.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

O fim do mundo é toda criança com fome


Texto de Juliano Lima Schualtz, estudante de História da UEPG, Ponta Grossa.

Postado no Portal aRede em 06/02/2020, publicado no Diário dos Campos em 18-03-20, lido na CBN Ponta Grossa em 11/08/2020.

Há gente em abundância. Saem dos ônibus, batendo-se umas nas outras, corpos bem vestidos, com conduta, limpos. Entram em confronto nessa cidade sem deuses. Meu corpo pequenino e mulato, continua encardido. Meu ranho, minha remela, minha raiva, ninguém os rouba. Passa um senhor engravatado e usando óculos. Peço dinheiro, ele passa reto. Óculos programado para não ver menino em situação de rua. Nos terminais de Ponta Grossa, repouso a cabeça no colo de minha mãe. Mamãe também é mulher, olham para ela como se fosse outra coisa. Menor em situação de rua não tem estatuto de criança, somos ameaças.
Gente que passa aqui, sempre tá de saída, de entrada. Nós aqui, no acostamento, somos intrusos. Colega de rua vende verso. Minha mãe vende bala. Um índio vende balaio, ele não é índio, é caingangue, me disse. Também falou que existem vários povos no Paraná e índio é um nome que não serve. Dia desses perguntei para o índio se eu podia entrar dentro do balaio, era imenso. Ele não queria deixar. Especulei que era escondedouro da retina dessa gente que passa.
Esses olhares vingativos nesses rostos caretas vigiam-interrogam: pupila-tribunal. Já pensei em roubar, não é por ser criança má, é critério de barriga, ela ronca de noite, não me deixa dormir. A fome se alimenta do sono, brota a insônia azeda, com ela o devaneio. Essa estranha anorexia dos sonâmbulos maltrapilhos. Sono é coisa de gente bem alimentada, gente que tem outro dia pela frente.
Tem dias que penso pelo estômago, reflexões digestivas, memórias gástricas. Arrasto os pés pelados, pedindo moeda. Queria brincar de esconde-esconde: mãe por favor me esconda desses olhares. Não curumim, responde ela. Num dia desses perguntei para mamãe: no céu existe fome? Há uma valeta na minha barriga, dia passa e ela fica mais esticada.
Outro dia um senhor falou que eu não era criança, perguntei: quem roubou minha infância? Ele atravessou a catraca, foi embora. Ninguém responde essa pergunta que escapa dessa boca banguela: quem roubou minha infância?

Heróis não morrem, são apenas esquecidos

Texto de autoria de Reinaldo Afonso Mayer , professor Universitário aposentado, Especialista em Informática e Mestre em Educação pela UEPG, ...