segunda-feira, 17 de junho de 2024

A epifania de José

Texto de autoria de Sílvia Maria Derbli Schafranski, advogada e Mestre em Ciências Sociais pela UEPG, residente em Ponta Grossa.

Era uma manhã como outra qualquer, ou pelo menos parecia. O Sol despontava tímido no horizonte, enquanto eu dirigia pelas ruas ainda sonolentas rumo ao campus da UEPG. O rádio do carro, meu companheiro fiel do trajeto solitário, tocava uma melodia suave quando a voz do locutor, com ares de filosofia matinal, decretou: "Devemos selecionar as ressacas pelas quais queremos passar, seja na bebida, nos relacionamentos ou nas atitudes financeiras impulsivas."

Aquela frase, realmente inteligente, me atingiu como um soco, daqueles que despertam a alma mais adormecida. Imediatamente, minha mente viajou até Carlos Drummond de Andrade e a epifania de seu famoso "José". "E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José?". Drummond sabia como ninguém desnudar a ressaca existencial, aquela que vem quando as luzes da euforia se apagam e somos confrontados com o vazio que restou.

Enquanto ainda não chegava, fui tomada por uma reflexão inevitável. Quantas vezes as pessoas se entregam ao hedonismo, buscando prazeres efêmeros, seja na comida, na bebida alcoólica, nos vícios, no consumismo exacerbado, na sexualidade desmedida que, no fim, lhes deixam apenas um gosto amargo? A sociedade moderna os empurra constantemente para a busca do prazer imediato, para a satisfação a qualquer custo. Mas a que preço?

Lembrei-me de Nelson Rodrigues, mestre em desvelar as tragédias do cotidiano. Ele, com seu olhar mordaz, veria nessas palavras do radialista uma verdade crua e irônica. "A vida como ela é", dizia ele, não perdoa os que se rendem facilmente aos caprichos do prazer sem pensar nas consequências.

Eu continuava dirigindo e lembrei-me de um amigo que, em busca de aventuras amorosas, sacrificou um casamento sólido. O brilho fugaz das noites de boemia acabou por apagar o calor da companheira fiel, deixando-o só, com uma ressaca de arrependimento eterno.

Ao chegar ao campus, estacionei o carro e concluí, que devemos ter coragem para dizer "não" aos convites sedutores do prazer imediato e sabedoria para compreender que a verdadeira felicidade reside na constância, no autocontrole e na integridade.

Entrei no prédio com a certeza de que precisamos, como José, antecipar as respostas de quando a festa acaba e a luz se apaga. Precisamos escolher nossas ressacas com cuidado, sabendo que elas moldam quem somos e que não sejamos nós aqueles que tenham que responder: José, e agora?

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Se essa rua fosse minha

Texto de autoria de Wilson Czerski, militar da Aeronáutica, escritor e jornalista aposentado, natural de Ponta Grossa e residente em Curitiba. 

Nem precisava ladrilhar, conforme a canção de ninar. Naquela época um bom cascalho já resolvia. Morei na Cesário Alvim cerca de oito anos, na década de 1960. Jardim Central. Nome afrontoso para o local. De jardim não tinha nada. Número 1121. Ou 121? Talvez nem um nem outro. A memória está embaçada. Mas era perto dos trilhos que separavam Olarias de Oficinas.

          Da primeira para a segunda e para nós, descia e depois subia. Como é fácil adivinhar, só terra. No seco, poeira; na chuva, barro e escorregões. Valetas se abriam com as enxurradas não só nas laterais, na frente das moradias, mas na própria rua. À noite, escuridão e tristeza.

Ônibus, de um lado só na Visconde de Mauá; do outro, na Rua Operários. Em um trecho da Domício da Gama passava o Jardim Europa. Não servia. Nunca soube se por lá havia algum jardim.     

Lá embaixo, a barroca. Um riozinho que vinha não sei de onde, malcheiroso por produtos químicos da laminadora e esgoto mesmo. Do lado direito tinha uma meia-água habitada por uma família que antigamente dizíamos “de cor”. Eu passava ali e ficava imaginando como era conviver com o odor, a falta de luz e o risco de enchente caso aquela água estranha transbordasse. Eu, ao menos, morava lá em cima, casa grande, de madeira, quintal grande onde se plantavam mandioca, milho, verduras e tinha um pé de limão e outro de mimosa.

Do outro lado, o Bar do Gaúcho. Ia lá comprar pão de água, quando acabava o feito em casa, e bananas embrulhadas em jornal cujas notícias de uma ou duas semanas atrás eu devorava avidamente. Depois, para a madrasta, também gaúcha e fiel às raízes, buscava maço de cigarro Farrapos, um dos mais baratos. Com os troquinhos com os quais ela generosamente me gratificava, maria-mole ou paçoquinha.

Cerca de 40 anos depois e há uns 10 ou 15, passei por lá. Meio envergonhado, fui “apresentar” à esposa a rua e a casa. Descemos de carro, lentamente, pirambeira abaixo. Nem tempo para reconhecer a vizinhança. Atenção total às eternas valetas. Haviam, é verdade, asfaltado um pedaço até mais ou menos onde ficava o bar, então, transformado em sobrado.

A casa lá no alto mudara para a frente, de alvenaria. Logo ali a Ricardo Wagner, asfalto em ligação alternativa entre Oficinas e o centro através da Silva Jardim. Buscas no Google me revelam que agora, 60 anos depois, parece que a civilização chegou por lá.

Então, tudo o que resta é uma velha cicatriz na alma. E não há mais razão de cantar Se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar... Ou só cascalhar.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Se essa rua fosse minha

Texto de autoria de Ludo Santos, jornalista e bancário aposentado, natural de Ponta Grossa, residente em Curitiba.

A rua era curta. Rasgava o centro da cidade em apenas quatro quarteirões. Oficialmente, fora batizada de Coronel Cláudio, mas ninguém a chamava por esse nome a não ser em anúncios de rádio e TV, quando os locutores davam os endereços do Tuma e do Chamma, então os dois maiores supermercados de Ponta Grossa.

Para a maioria da população era conhecida como a rua da Estação, pois sua continuação terminava num beco próximo ao terminal da Rede Ferroviária, onde havia alguns hotéis suspeitos e à noite um trottoir mais suspeito ainda.

Para as mães do bairro pobre em que eu morava, era a rua dos Turcos, por conta das lojas de roupas simples e baratas que ali eram vendidas. Saíamos do Olarias sonhando com calça Lee e tênis All Star e voltávamos emburrados para casa com Brim Coringa e Conga. Estávamos em fase de crescimento e como o dinheiro era curto, tivemos de passar algumas primaveras por esse dissabor na hora de renovar o guarda-roupa.

Alguns filhos dos donos das lojas estudavam conosco no São Luís. Assim como nossas mães, erradamente chamávamos todos de turcos, mas na verdade a maioria era de descendência libanesa e havia um, vamos chamá-lo de Marquinhos, embora esse fosse realmente seu nome, cujos pais eram judeus. A convivência era pacífica, só quebrada quando explodiam escaramuças futebolísticas.

Numa manhã chuvosa de outubro de 1973, fui mandado à rua dos Turcos comprar um par de luvas para uma viagem. Lembro disso não porque tenha boa memória, mas porque estávamos nos preparativos para visitar Aparecida no seu dia, pagamento de uma promessa que minha mãe fizera.

 Depois de afrontar o mau tempo daquela manhã, cheguei à loja da família do Marquinhos e presenciei na entrada uma cena que me consternou.  O pai dele, cabelos brancos, mais de 100 quilos, chorava copiosamente abraçado ao turco magro, alto, nariz adunco, dono da loja ao lado. Eu nunca vira homem chorar, muito menos nos braços de outro homem.

À tarde, na sala de aula, perguntei ao Marquinhos o que havia acontecido. Ele me explicou que os dois, além de vizinhos, eram bons amigos, mas estavam rompendo a amizade por causa da guerra no Oriente Médio. Não entendi nada. Sim, havia ouvido falar da tal guerra no telejornal da TV Esplanada. Nomes como Sadat, Yom Kippur, Golda Meir, Sinai, apareciam diariamente na tela da nossa Semp, mas não conseguia atinar como aquilo podia se refletir na rua dos Turcos.

Vendo ultimamente o noticiário da TV, com o rosto sulcado e envelhecido, caminhei 50 anos para trás numa rua que não existe mais e da qual não tenho saudade. As velhas lojas receberam fachadas e vitrines modernas, coloridas. Há uma iluminação vintage, sem fios. O asfalto foi substituído pelo belo petit pavê para uso exclusivo de pedestre. Chamam-na agora de rua do Calçadão. É a rua mais bela da cidade. Se fosse minha, mandaria colocar um banco de madeira maciça para vasculhar minhas memórias, tomar sorvete da Polar e entalhar um nome no qual ficaria retido um pouco do amor adolescente à homenageada.

segunda-feira, 27 de maio de 2024

Teorema de Pitágoras

Texto de autoria de Márcia Derbli Schafranski, professora universitária aposentada, Especialista e Mestre em Educação pela UEPG e Suficiente Investigadora pela Universidade de Extremadura, na Espanha, residente em Ponta Grossa.

Numa pequena fazenda situada em Ivaí, juntamente com sua família, vivia um agrônomo que cultivava a terra e criava pequenos animais. Quando a filha mais velha, Laura, terminou o curso primário, ele e a esposa acharam por bem que ela fosse morar com os avós em Ponta Grossa, para dar continuidade aos estudos. A princípio, a menina relutou, pois estava acostumada à vida no campo, a assistir ao pôr do sol, refletido nas águas do pequeno lago da fazenda e ao convívio com os irmãos menores. Finalmente, foi convencida, sob a promessa de poder passar todos os finais de semana na fazenda.

Após sua aprovação ao ginásio, foi matriculada num colégio religioso pertencente às Irmãs Servas do Espírito Santo, por ser próximo da casa dos avós, que moravam à rua Júlia Wanderley.

Era uma aluna inteligente e aplicada, sempre obteve boas notas. Mas, para ela e suas colegas, a matemática tornou-se um suplício. Não conseguiam entender, dentre outros conteúdos, as equações de segundo grau e muito menos o Teorema de Pitágoras, cuja utilidade o professor nunca explicou. Laura, procurava decorar fórmulas e enunciados, sem saber exatamente onde iria aplicar.

O professor parecia entender muito da matéria, mas não tinha a mínima didática. Entrava na sala, mal cumprimentava as alunas, fazia a chamada e logo escrevia na lousa o conteúdo do dia. Falando sem parar, mandava-as anotar o que falava e escrevia, sem ao menos perguntar se estavam entendendo o que ele se propunha a ensinar.

As meninas ficavam estáticas nas carteiras, e ai de quem ousasse se manifestar. Se acaso se mexessem ou virassem para os lados, o professor atirava nas suas cabeças o giz que tinha nas mãos e em voz solene dizia: número, menina? (queria saber o seu número na chamada, pois, não se interessava em saber o nome de ninguém). Anotava os números no final do quadro-negro, para que ficassem de castigo, permanecendo na sala de aula por mais quinze minutos após o horário da saída oficial.

A duras penas, Laura conseguia tirar a nota mínima para passar de ano, pensava, por vezes, que seus neurônios estavam “enfraquecendo”. Finalmente, terminou o Curso Ginasial e livrou-se definitivamente da matemática. Queria ser professora e no Curso Normal, as disciplinas eram voltadas para a formação humanística e pedagógica.

No entanto, sem saber o porquê, às vezes, surge-lhe à mente o velho enunciado: o quadrado da medida da hipotenusa é igual à soma dos quadrados das medidas dos catetos.

segunda-feira, 20 de maio de 2024

A fila dos filhos

Texto de autoria de Sílvia Maria Derbli Schafranski, advogada e Mestre em Ciências Sociais pela UEPG, residente em Ponta Grossa.

No coração do Bairro de Oficinas, onde as ruas estreitas se entrelaçam como veias pulsantes, há uma sinfonia peculiar que embala os dias e o fim das tardes: o riso contagiante das crianças que diariamente adentram os colégios, inundando o ambiente com uma energia única, irreverente e cheia de vida.

Naquele típico dia de escola, sob o sol escaldante que teimava em derreter as calçadas, adentrei na multidão de mães ansiosas que aguardavam na fila pela saída dos filhos. Enquanto me posicionava na espera interminável, não pude evitar um pensamento inquietante: quantas filas teria ainda que enfrentar por meus filhos ao longo da vida?

Mas então, como uma epifania, veio-me à mente algo divino, algo que transcende todas as filas dos filhos: a sensação indescritível que todas as mães experimentam ao conhecer seus filhos pela primeira vez. Aquela ansiedade misturada com felicidade inigualável, que ecoa além do tempo e das circunstâncias.

Ah, recordar daquela sensação indescritível que inundou meu ser na chegada do meu filho à Santa Casa de Misericórdia em Ponta Grossa, é como reviver um daqueles momentos que se perpetuam na memória como uma obra-prima da vida. Trago em mente vívidos flashes da competente médica obstetra Ana Paula Ditzel, cujo jargão ressoa nos corredores do hospital: "só crianças lindas nascem com ela". E ao lado dela, o fabuloso pediatra Dr. Adalberto Baldanzi, cuja dedicação e cuidado eram como um bálsamo para a alma aflita dos pais.

Foi ali, naquele santuário de vida e esperança, que testemunhei o milagre do nascimento, onde a dor se transforma em êxtase, o medo em coragem, e a incerteza em fé inigualável. Sob o olhar atento e carinhoso da equipe médica, meu filho veio ao mundo, envolto em um manto de amor e cuidado que apenas mãos tão habilidosas poderiam proporcionar.

E naquela fila infernal eu compreendi, que não importa como os filhos cheguem até suas mães, se por vias naturais ou adotivas, se com lágrimas ou sorrisos, o que importa é aquele momento de encontro, aquele instante mágico em que mãe e filho se reconhecem e se fundem em um vínculo eterno.

É como se cada reencontro fosse um eco daquele primeiro momento, uma ressonância daquele amor incondicional que transcende o tempo e o espaço. E é essa certeza, esse sentimento indomável que guia cada mãe através das inúmeras filas dos seus filhos e desafios que a vida lhes impõe.

segunda-feira, 13 de maio de 2024

O quinze de abril

Texto de autoria de Rosicler Antoniácomi Alves Gomes, Professora de Português e Inglês, residente em Ponta Grossa.

          Eu já não era mais criança, mas “sérios” compromissos de adolescente não me impediram de acompanhar meu pai, num determinado 15 de abril, ao pinheiral do primo Valdo, no distrito de Guaragi, na localidade rural de Taboleiro. Nessa ocasião, que já ficou mais de meio século no passado, adentramos uma bela floresta de araucárias produtivas, prontas a obedecerem à lei do 15 de abril, que despejavam de suas fecundas pinhas maduras os polpudos pinhões.  Segundo Avelino Antoniácomi, meu pai, as araucárias do pinheiral do Valdo jamais negaram sua fidelidade a essa lei, de forma que também ele (ainda um solteiro agricultor, ou já um ferroviário, casado, pai de sete crianças, em férias, ou mais tarde, desfrutando da aposentadoria na chácara do Taboleiro), sempre que possível, lá estava, no pinheiral do Valdo, recolhendo num cesto as sementes que as gralhas não enterraram, que os bugios não comeram no alto do pinheiro, que a ventania acabara de debulhar das pinhas. Antes do 15 de abril, era possível encontrar pinhões, apenas em um certo local, onde vicejavam algumas araucárias conhecidas por Pinheiro de São José, assim nomeadas porque suas sementes costumavam debulhar aos poucos desde o dia 19 de março, Festa de São José, mas eram sementes mais miúdas e não tão macias como as que obedeciam à lei do 15 de abril. O confiante Avelino garantia que antes do 15 de abril os polpudos pinhões de uma certa espécie que abundava naquela floresta não estariam no chão, mas nesse dia, era preciso disputar seara com os porcos, “obviamente” também conhecedores da obediência das araucárias do Valdo.

          Recordo-me com clareza do 15 de abril em que tive uma prova da proteção divina. Nosso pai era um grande valente medroso, que nos preservava de sustos com os porcos comedores de pinhões, ou com os bugios no alto dos pinheiros, mas eu já não era criança, naquele dia, em que as filhas “mais velhas” que quiseram acompanhá-lo, tiveram permissão.

 A um “craque”, diferente dos “craques” produzidos por nossos tênis quebrando gravetos no chão, instintivamente, dei um pulo para trás, e exatamente no ponto de onde pulei para trás, despencou um robusto e mal-intencionado galho de araucária; o anjo da guarda, a quem eu até já perdera o hábito de pedir proteção, agiu prontamente, impedindo um desastre, que nada tinha a ver com os temidos fuçadores. Com a fé restabelecida, sem medo, segui adiante na coleta dos pinhões. Apenas apurei meus sentidos, e concentrei-me nos avisos da Natureza.

segunda-feira, 6 de maio de 2024

Abrindo a página

Texto de autoria de Luiz Murilo Verussa Ramalho, servidor do Ministério Público Estadual, residente em Ponta Grossa.

"Àqueles que partilham desta forma bibliófila de voyeurismo e que em um dia distante encontrarão esta crônica."

Você abre o livro e desaparece no cosmos enigmático e arrebatador que está de tocaia em suas páginas. Não me refiro ao enredo, por mais aliciante que seja, mas a uma dobra anterior deste multiverso, o maquinário de urdir mistérios que são as dedicatórias.

Há livros que valem pela dedicatória. A eloquência de quem dedica – certamente impulsionada por fomes interiores que o inspiram – supera a do autor do livro-objeto, que o escreveu burocraticamente, de ânimo frio, para lançá-lo ao mercado e pagar o condomínio. A dedicatória certeira ilumina o livro fraco, mas a dedicatória de estilo tropeçante em nada macula o livro bom, antes passa a integrá-lo, talento do autor (do livro), potência anímica do autor (da dedicatória) alinhando-se, verso e anverso da mesma obra, escrever mal com o sentimento do escrever bem.

Nas bibliotecas públicas de Ponta Grossa, o dedicatorismo – inventei o nome, mas não o movimento – é praticado com frugalidade. Livro que se ganhou e rejeitou não é para ser doado e sim para ser trocado ou vendido, bem baratinho, nos comércios próprios. Constelações de dedicatórias, arquipélagos de dedicatórias, plêiades, matilhas, falanges de dedicatórias vicejam nos livros vendidos nos sebos da cidade, vertidas em todos os estilos. Pedagógico: "que aprenda muito no curso de..."; açucarado: "com afeto do..."; doméstico: "para minha filha, no aniversário de..."; vidente: "essa noite sonhei que vamos..."; poético-ecológico: "o mar, as estrelas, os passarinhos"; irônico: "caso saibas ler..."; filosófico (é o estilo açucarado ou o vidente, mas citando autores para reforçar as segundas intenções) e a seguinte pedrada com sutileza, datada e tudo: "Para a D. Silvia, com respeito, mas com esperança. Luis Fernando, 1954". (LF foi cirúrgico e, se algum familiar entrar em contato dizendo que funcionou, faço crônica, mas o livro estar no Sebo sugere o contrário.)

Apreciar dedicatória é lançar um olhar que devassa o interior de quem olha. Há quem evite escrevê-las, contando sua história antes da história propriamente dita, alegando o temor de um dia encontrar o livro, com sua caligrafia, seu nome e sua boa vontade, na liquidação da rede Espaço Cultural ou no Sebo Pantera. Temor vazio, que esconde um outro, mais nocivo, o medo de viver.

Heróis não morrem, são apenas esquecidos

Texto de autoria de Reinaldo Afonso Mayer , professor Universitário aposentado, Especialista em Informática e Mestre em Educação pela UEPG, ...