segunda-feira, 18 de março de 2024

Amor sobre rodas

Texto de autoria de Sílvia Maria Derbli Schafranski, advogada e Mestre em Ciências Sociais pela UEPG, residente em Ponta Grossa.

Publicado no Diário dos Campos em 20/03/2024, e no Jornal Página Um em 22/03/2024.

No aconchego do nosso lar, em uma noite tranquila, meu filho, com olhos curiosos e mente inquisitiva, decidiu mergulhar em um dos capítulos mais lindos da minha juventude. Sentados à bancada da cozinha, ele me olhou com um sorriso jocoso e indagou-me:

"Mamãe, qual era o Uber que te buscava nas festas, quando você era jovem?"

Foi como abrir um baú empoeirado de lembranças. Um sorriso nostálgico surgiu em meus lábios, enquanto eu rememorava os dias de outrora.

"Bem, filho, na verdade não tínhamos Uber naquela época. Mas havia alguém muito melhor."

“Nos anos 90, quando as festas eram regadas à música alta, roupas coloridas e um misto de ansiedade e excitação adolescentes, havia uma figura que se destacava entre os jovens: meu pai. Com seu espírito jovial, ele abraçava uma peculiar missão com uma dedicação quase sagrada.”

"Quem me levava e me trazia das festas durante toda minha adolescência era o seu avô.”

"O vovô? Mas como ele conseguia te acompanhar na balada?”

Eu ri com a inocência, e abriu-se uma janela para um passado repleto de amor paternal.

"Bem, filho, seu avô não dirigia qualquer carro. Ele tinha uma verdadeira carruagem, um gigante de metal que acomodava treze outras meninas!", expliquei, vendo seu espanto.

"Treze outras garotas? Mas como cabiam?"

"Ah, isso era parte da mágica", respondi com olhos brilhando de nostalgia. "Seu avô tinha um Landau, um carro grande e espaçoso. Ele fazia questão de nos levar e nos devolver em segurança, mesmo que isso significasse várias viagens pela cidade."

Seus olhos brilhavam com curiosidade. "Seu avô era um homem gentil e preocupado com o bem-estar das pessoas. Fazia-se sempre presente. Ainda, tentava captar as nossas conversas e, quando chegava em casa, ele as transmitia à sua avó”. Não era apenas um motorista, mas um observador atento, um ouvinte discreto das confidências e segredos das garotas que transportava.

Durante o trajeto, as conversas fluíam. Falávamos sobre paqueras, expectativas para a noite, dilemas adolescentes e sonhos futuros. Ele geralmente permanecia em silêncio, mas, ocasionalmente, lançava um comentário sábio ou uma piada bem-humorada que arrancava risos.

Lembro-me da sensação de segurança e conforto, do jeito carinhoso com que ele nos tratava e da sabedoria tácita que emanava de sua presença.

Com esse ritual contínuo, compreendi que o amor verdadeiro não se traduz apenas em palavras, mas em atitudes incondicionais de sacrifícios, devoção, proteção, amizade e responsabilidade.

segunda-feira, 11 de março de 2024

Metáfora do moinho

Texto de autoria de Sílvia Maria Derbli Schafranski, advogada e Mestre em Ciências Sociais pela UEPG, residente em Ponta Grossa.

Publicado no Diário dos Campos em 13/03/2024, e no Jornal Página Um em 15/03/2024.

No coração da pequena Colônia Castrolanda, encravada no interior do Paraná, ergue-se majestoso o imponente moinho de vento, um dos símbolos mais marcantes da região.

Elevam-se as grandes pás giratórias e estrutura de madeira robusta. Não apenas um marco histórico, é também um ponto de referência para moradores e visitantes.

Naquela tarde ensolarada, enquanto o movimento turístico se intensificava, algo incomum acontecia. Entre os turistas tirando fotos e os moradores aproveitando o dia de folga, uma figura se esgueirava pelas sombras, tentando passar despercebida.

Era Ariel, um jovem inquieto em busca de um momento de paz e introspecção. Envolto pelo ruído da cidade e as conversas animadas dos visitantes, seus pensamentos pareciam barulhentos demais: – O moinho, erguido como um guardião solene na vastidão da paisagem, é mais do que uma estrutura de madeira que desafia o vento. Ele é um símbolo poderoso, um eco sussurrante da jornada humana através das estações da vida, pensou.

Em meio aos seus pensamentos, ouviu um guia gritar: – Vejam senhores esse moinho, com sua capacidade de transformar o vento em energia, nos ensina a arte da adaptação. Assim como ele ajusta as velas para aproveitar ao máximo cada rajada, nós também aprendemos a ajustar nossas velas da alma, navegando com coragem e sabedoria através das mudanças que a vida nos impõe.

Ariel imediatamente pensou: – À medida que as estações passam e os anos fluem como rios sinuosos, o moinho permanece como um farol silencioso de esperança e renovação. Ele nos lembra que, mesmo em momentos sombrios, há sempre a promessa de uma nova aurora, um novo começo esperando para nascer.

Enquanto o sol se punha lentamente, Ariel finalmente emergiu do moinho, renovado e revitalizado. Ao sair, trouxe consigo um pouco da calma e da serenidade que encontrara naquele lugar tão especial.

Quando contemplou o moinho, viu não apenas uma estrutura de madeira, mas o reflexo da própria jornada. Metaforicamente se imaginou como suas pás, girando, impulsionado pela força dos ventos da mudança. Descobriu que cada revés, cada desafio, é apenas mais uma oportunidade de crescer, de aprender, e sedimentar verdadeiros valores.

Para Ariel, o moinho se tornou um símbolo de resiliência. Entendeu que somos capazes de transformar as tempestades em calmarias, assim como o moinho converte o vento em energia.

E assim seguiu seu caminho, com propósito de voar alto e livre, como as pás de um moinho, em direção aos sonhos mais audaciosos.

segunda-feira, 4 de março de 2024

A camiseta e a vaca

Texto de autoria de Wilson Czerski, militar da Aeronáutica, escritor e jornalista aposentado, natural de Ponta Grossa e residente em Curitiba.

Postado no Portal aRede em 19/03/2024, publicado no Diário dos Campos em 06/03/2024, e no Jornal Página Um em 12/03/2024.

    Ainda início da década de 1990. Um cunhado trabalhava na Indústria Wagner. Por algum laço especial de amizade dele com a direção, minha mãe e o padrasto foram contratados para cuidar de uma chácara de um dos gerentes, localizada na Colônia Dona Luiza.

Em visita a Ponta Grossa, num domingo de verão, fomos, minha família e a do cunhado, passar o dia na tal chácara. A casa em que minha mãe estava instalada não era muito grande, mas o suficiente para duas pessoas morarem como caseiros. As cercas de arame delimitavam a propriedade, mas não havia separação entre a casa e uma área de campo que se estendia para todos os lados por algumas centenas de metros. Outros detalhes não me chamaram a atenção.

O fato é que, enquanto aguardávamos o almoço ser servido, adultos e crianças se envolveram em uma brincadeira com bola. Devido ao sol forte, tirei a camiseta regata e a pendurei em um arame utilizado como varal. Este foi o início de uma tragédia afetiva.

Embora fosse uma camiseta tricolor (azul com duas listas, uma branca e outra vermelha nas laterais), portanto, em desacordo com as minhas preferências clubísticas, eu a tinha por predileta.

Quando a procurei para vesti-la para sentar-me à mesa, dei-me conta de tê-la deixado lá fora e, ao sair para buscá-la, deparei-me com uma cena inusitada e alarmante. Uma vaca, simplesmente, estava a mastigar a dita cuja. Desesperei-me não só porque gostava muito dela, a camiseta e não a vaca, mas porque precisaria dela para poder dirigir de volta.

Confesso que minhas relações com os bovinos sempre foram muito discretas e nossa intimidade limitava-se a alguns olhares desconfiados trocados a uma distância segura. Foi, então, que eu me equipei de toda a coragem que jamais suspeitei possuir e avancei em direção à vaca alvinegra e, entre uma mastigada e outra, consegui arrancar a camiseta de sua boca.

Ao fazê-lo, uma mistura de sentimentos tomou conta de mim. Tristeza por constatar os estragos causados à preciosa peça de vestuário. Ela sofrera uma traumática transformação. Tomara-se de uma cor diferente decorrente do suco de grama. Estava mascada, gosmenta e quente, formando uma pasta heterogênea de tecido, grama e baba do ruminante.

Porém, não pude deixar de exibir à rival um ar de triunfo por ter recuperado o meu pertence.

Lavei a camiseta – ou o que sobrou dela – sob muitas gargalhadas e enquanto secava – em outro varal –, saboreamos uma peixada fantástica de taraíras como dizemos nós, ponta-grossenses, pescadas ali próximo, no rio Tibagi.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Costumes, fins

Texto de autoria de Luiz Murilo Verussa Ramalho, servidor do Ministério Público Estadual, residente em Ponta Grossa.

Postado no Portal aRede em 02/04/2024, e publicado no Diário dos Campos em 28/02/2024.

Quando a boca imponderável do destino sopra as famílias espalhando mapas afora os farelos que são os seus indivíduos, tudo parece ser o fim, ter cor de fim, o odor o sabor o sombreado do fim, mas é somente o começo de algo indomável que é, também, destino. 

Ao ler neste espaço a crônica “Evolução de Costumes”, na qual a Sueli aborda os hábitos que as diferentes gerações de sua família tinham no arrumar a mesa, me lembrei de que a minha também punha à mesa hábitos que merecem registro, embora numa perspectiva outra. 

Consta do anedotário que tios-avós paternos meus e outros antepassados – tão mais remotos que o direito civil nem nominou os parentescos – foram pistoleiros na Paraíba, presumivelmente na primeira metade do século que findou. Duas das reses – o pai de meu pai e um irmão mais velho – desgarraram do clã e, se afastando das agruras locais (quando os patriarcas levavam a prole ao circo, distribuíam revólveres aos rapazinhos púberes, reunidos em torno da mesa, para se defenderem das famílias contrárias) se instalaram inicialmente no Estado de São Paulo e depois no Paraná. Meu tio-avô se estabeleceu como próspero dono de supermercado; meu avô, que gostava de mim e eu dele (com melhores razões agora, como se verá), metamorfoseado em gaiteiro lendário no nosso estado, não se fez ouvir pela Fortuna e faleceu precocemente como despretensioso alfaiate (o que houve com a gaita?). Unia os irmãos não serem fugitivos, por não deixarem delitos para trás, podendo fazer de alma leve o muito ou pouco que fizeram, sem nada dever aos tribunais. O que entristecia o mais velho, refletindo sobre a travessia próxima, era não ver a Copa de 94, que logo vinha e Romário colocou no bolso. 

Só uma vez, um dos que ficaram veio mapa abaixo para visitá-los. Idoso, enfermo, completamente só, pediu a meu pai que o acompanhasse numa consulta. Na hora de o médico auscultá-lo, meu pai lhes deu as costas, para guardar privacidade, quando ouviu o doutor gritar horrendamente. Ao virar-se, descobriu que seu tio tinha o torso tomado pelos projéteis que sua magreza acolhera em décadas de violência. “Eu mais novo gostava muito de umas feixxtas”, riu entredentes o parente, que pouco viveu depois da cena. 

O que este tio pensaria de minha geração, ou mais especificamente de mim, que sem ter levado nenhum tiro em festas faço pouco delas, e ponho para fora sem matá-la uma lagartixa que volta e meia me aparece em casa?

Penso eu que certos costumes, realmente, merecem ter fim.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Cidade

Texto de autoria de Ingrid Aparecida Ditzel Felchak, professora aposentada, escritora e fotógrafa, natural de Prudentópolis e residente em Ivaí.

Postado no Portal aRede em 05/03/2024, publicado no Diário dos Campos em 21/02/2024, e no Jornal Página Um em 05/03/2024.

Caminhei na direção do povoado. Os pés vagarosos eram picados pelas grimpas escondidas entre o capim. Os Campos Gerais estavam cobertos pela geada. O vento impiedoso rosou minha face e o chapéu de palha alçou voo frenético além das araucárias. A beleza encantou os olhos. Onde poderia estar?

 Casas de madeira pintavam a paisagem com cores variadas. Nos telhados, a fumaça dançava enquanto saia das chaminés. Aproximei-me... Crianças brincavam de esconde-esconde nas ruas de terra. Pessoas passavam apressadas carregando cestos de mantimentos ou conduzindo animais. Nas áreas e cercas, roupas secavam. Ainda posso sentir o cheiro de pão assado. Acordei.

Olhei pela vidraça respingada de chuva. As araucárias cederam lugar ao concreto e o povoado à cidade. Uma metamorfose orquestrada pelo progresso. Na calçada, o corre-corre dos transeuntes. Agora não há mais silêncio. Buzinas fazem queixas em meio ao congestionamento dos automóveis. Observo o movimento. Duzentos anos entre o sonho e a realidade. Olho o relógio na cabeceira. Levanto apressado em uma luta frenética pela sobrevivência cotidiana. Percorro a distância entre a praça e o colégio. Os alunos estão à espera da primeira aula do dia.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Evolução de costumes

Texto de autoria de Sueli Maria Buss Fernandes, professora aposentada, residente em Ponta Grossa.

Postado no Portal aRede em 16/04/2024, publicado no Diário dos Campos em 14/02/2024, e no Jornal Página Um em 16/02/2024.

Os costumes mudam de acordo com a época, com o nível social, cultural ou econômico de uma família. Lembro bem dos costumes da minha infância, trazidos por meus pais que, por sua vez, os herdaram de suas famílias. Meus avós de ambos os lados eram muito religiosos, frequentavam missas, novenas, participavam ativamente das atividades da igreja São José. Chamávamos a Vó Maria, da Barão de Capanema, de “Vó de Baixo” e a Vó Luísa, da Prefeito Brasílio Ribas, de “Vó de Cima”, tomando por base a localização da nossa casa na Júlia Lopes. Minha mãe não seguiu o mesmo esquema religioso. Tornou-se mais liberal depois do casamento. Já independente da mãe, vivia segundo suas regras.

Meus avós arrumavam a mesa para as refeições sem preocupação com louças ou talheres. Diziam que ninguém come o prato e que o importante era o alimento. O café era adoçado no bule, um caneco para cada pessoa, a manteiga com uma faca dentro do pote, compartilhada por todos. O mesmo acontecia com a geleia. A nata do leite fervido afastada com um pequeno sopro antes de adicioná-lo ao café. Simples assim, trivial.

Na minha casa, mesmo na humildade, a relação com o visual e o conforto era mais estreita, sem nenhuma conexão com luxo, sofisticação ou requinte.  O café era servido num bule, porém amargo. Para tanto minha mãe abandonou os canecos, adotou xícaras, pires, açucareiro e colherzinhas. Facas individuais para cortar e preparar o pão, garfinho para o bolo e pratinhos de sobremesa onde colocar o alimento evitando deitá-lo sobre a toalha. Aumento de louça na pia, porém mais conforto e higiene.

Enquanto meus avós e tias ainda usavam toalhas de plástico pela praticidade com as crianças, lá em casa se usava toalha de tecido e guardanapos. Aprendemos desde criança a usar talheres básicos, não lamber a colherzinha do café e não apoiar os cotovelos na mesa. Os copos eram do tipo americano e taças só no Ano Novo para o brinde com frisante.

Agora que conheço, embora não use, talher para peixe, taças para água, vinho tinto, vinho branco, enfileiradas, fico imaginando o que diriam meus avós sobre isso. Com certeza diriam: “Que frescura”! “Luxo não enche o bucho”, ainda com a visão antiquada que não incluía boas maneiras. Mesmo assim sinto saudade das cucas de uva da Vó de Cima que eu segurava com a mão e ia mordendo. A outra segurava o caneco de café já adoçado, sem frescura.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Causa mortis

Texto de autoria de Mário Francisco Oberst Pavelec, técnico em agropecuária, natural de Palmeira, residente em Ponta Grossa.

Postado no Portal aRede em 27/02/2024, publicado no Diário dos Campos em 07/02/2024, e no Jornal Página Um em 06/02/2024.

Já contei algumas das “aprontações” do pequeno piá que habitou (ou habita?) em mim. Passamos pela brabeza, as aventuras do pescador, o deslumbre cinematográfico no Cine Inajá, as tampinhas no Júlio Teodorico, as peripécias no campinho de saibro e os banhos refrescantes no Recanto dos Papagaios. Desta vez, o pequeno menino atacou de médico legista.

Alguns de nossos queridos parentes que transpuseram o plano da existência física para a existência espiritual estão descansando no Cemitério da Colônia Dona Luiza, inclusive meu pai. Não sei ao certo se meu destino final será lá também, mas, desde muito pequeno, por um motivo ou outro, frequento aquele campo santo.

Provavelmente foi no sepultamento de algum parente, ou em uma das idas até lá para verificar as condições da carneira da família, mas, estava este moleque com seus familiares já de saída, de mãos dadas com sua mãe, muito próximo ao portão principal, e, virando o olhar para sua genitora, dispara:

— Eu sei do que este homem morreu! — apontando para um túmulo grande, coberto de granito preto.

— De quê? — pergunta minha mãe, bem curiosa.

— Cerveja! — rebato eu de bate-pronto.

— Como assim?

— Olha ali, tem a marca da Antarctica no túmulo dele. Morreu de cerveja — sentencio.

Uma Estrela de Davi, aquela de seis pontas, enorme, ocupava grande parte da lápide, ao lado do nome do cidadão. Certamente um judeu ali sepultado, resguardado pelos seus símbolos religiosos e sagrados. Esta estrela também era, na época, o símbolo de muitas cervejarias, dentre elas a da Antarctica, que tinha sua fabricação em Ponta Grossa pela Cervejaria Adriática, no final da Avenida Vicente Machado.

Para as cervejarias, a estrela de seis pontas representava o símbolo da alquimia, posto que, por muito tempo, a ciência cervejeira era um mistério fortemente guardado. O pequeno moleque sempre via esse símbolo nos rótulos que circulavam em sua casa. Ligar a cerveja ao estampado na lápide daquele senhor não foi difícil. Causa mortis: cerveja.

Me perdoem os judeus, mas eu tinha, no máximo, uns cinco anos de idade.

Hoje em dia, quando abro uma, geladinha, tomo todo o cuidado para esta não seja a minha causa mortis.

Heróis não morrem, são apenas esquecidos

Texto de autoria de Reinaldo Afonso Mayer , professor Universitário aposentado, Especialista em Informática e Mestre em Educação pela UEPG, ...