segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Dom Afonso

Texto de autoria de Sueli Maria Buss Fernandes, Professora aposentada, Ponta Grossa.

 Postada no Portal aRede em 17/11/2021.

De repente, numa manhã cinzenta, últimos dias que precediam o outono, uma mensagem chega pelo celular: “Comunicamos aos nossos clientes que hoje encerramos as atividades do Restaurante Dom Afonso”. Como assim? Por quê? E a resposta vem rápida, quase atropelando a pergunta: deve ter sido a pandemia! A cruel pandemia foi a causadora culposa da melancólica notícia que surpreendeu a todos.

Resistiu a tantos decretos de abre e fecha, todos os dias uma nova resolução, proibição de atendimento presencial, só delivery, volta ao atendimento presencial com público reduzido, entrega de marmitas na porta do fundo, renda caindo... quanta angústia, quanta incerteza, preocupação com a equipe de funcionários...  Até quando resistiriam?

Os moradores do Jardim Carvalho estavam acostumados a frequentar aquele endereço na Avenida Monteiro Lobato, antes mesmo da instalação do restaurante. Havia ali um mercado que fornecia os itens necessários para a vida cotidiana, inclusive um açougue no fundo da loja. Era o melhor mercado do bairro, tocado pela Família Serenato.

Lembranças da Monteiro Lobato da época, rua de mão dupla, trânsito tranquilo, estacionamento em qualquer calçada. Velhos tempos, belos dias! A instalação da loja de uma grande rede de supermercados nas proximidades, a poucas quadras, carreou a maioria dos clientes, ávidos pela novidade e por preços mais atrativos; e o pequeno mercado foi engolido pelo grande. Fechou as portas.

Uma centelha ficou adormecida após a derrocada e, anos depois, a filha Priscila reacendeu a chama criando um restaurante naquele espaço e dando a ele o nome de seu avô, numa carinhosa homenagem. Apesar da luta diária, perdeu a guerra para um inimigo invisível mas muito forte, e sucumbiu a ele. O mesmo triste fim do mercado de seus pais. Assim como o vírus leva à falência de múltiplos órgãos e o paciente vai a óbito, a falência de múltiplas empresas está se tornando uma constante nos dias atuais.

Aos frequentadores do Dom Afonso era dado acolhimento simpático e familiar que gentilmente convidava-os a apreciar a deliciosa comida caseira que era servida no seu buffet self-service. Empresa bem administrada, protocolos rígidos de higiene, decoração agradável, ambiente que convidava a voltar. Por quase duas décadas, foi o caminho tomado por aqueles que queriam fazer uma refeição sentindo-se em casa. A saudade já nasceu e responde à chamada: Dom Afonso! Ausente! Esperança! Presente!

 

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

A igreja dos ateus

 

Texto de autoria de Rogério Geraldo Lima, empresário, redator e radialista, Palmeira.

Postada no Portal NCG.news em 14/10/21 e no Portal aRede em 10/11/21, publicada no Correio Carambeiense em 16/10/21 e no Diário dos Campos em 13/07/2022.

 

Operários pobres e, invariavelmente, condenados à pobreza podem trabalhar na construção de bancos e prédios luxuosos, sem contradições. O que pode gerar contradição aconteceu em Palmeira, precisamente na localidade de Santa Bárbara.

O ano: 1922. Personagens: cinco italianos, os irmãos Cafiero, Eliseo e Spartacus Corsi e os irmãos Alfredo e Emílio Dusi, descendentes de italianos da experiência anarquista da Colônia Cecília, ateus por convicção. Foi o quinteto que conduziu as obras de construção da igreja da localidade, habitada por imigrantes poloneses e seus descendentes, fervorosamente católicos.

Como a velha igreja de madeira, construída 30 anos antes, já se mostrava acanhada para acomodar os fiéis visto que a comunidade crescia , por iniciativa do padre Teodor Drapiewski 60 famílias assumiram o compromisso de colaborar na construção de uma igreja nova, maior e em alvenaria. Assim que o templo de madeira foi demolido, começou a obra da nova igreja, em março de 1922, sob a regência dos italianos ateus.

Em regime de mutirão chegavam ao local carregamentos de pedras, tijolos, areia, cal, madeira e telhas transportados em carroças e carroções. Em meio às obras, padre Teodor foi compulsoriamente transferido para Curitiba sob suspeita de mau uso dos recursos para a construção da igreja. Em substituição, chegou o padre Estanislau Cebula, que deu continuidade às obras. Mesmo inacabado, o novo templo era frequentemente utilizado para celebrações religiosas, inclusive casamentos.

A igreja foi construída seguindo o estilo arquitetônico tradicional dos templos poloneses, com uma torre frontal alta e em formato de cruz. No altar-mor, a imagem de Santa Bárbara. Acima dela, o quadro de Nossa Senhora de Czestochowa, considerada rainha e padroeira da Polônia.

Com a obra declarada concluída, um fotógrafo foi chamado para registrar o fato, imortalizando a imagem que mostra o novo templo e, à frente dele, os construtores: os Corsi e os Dusi.

Em dezembro de 1922 aconteceu a inauguração da igreja, com ato solene e presença de inúmeras pessoas, incluindo visitantes vindos de diversas comunidades da região. Os padres Teodor e Estanislau celebraram a missa. Foi um dia de festa e de comemoração para a comunidade católica de Santa Bárbara, mas os construtores do novo templo não compareceram. Certamente comungavam a alegria de beber um bom vinho, comprado com o dinheiro que ganharam honestamente construindo a igreja, dando vazão à sua alegria por mais uma obra concluída.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Futebol, férias, músicas...

Texto de autoria de Wilson Czerski, militar da Aeronáutica, escritor e jornalista aposentado, residente em Curitiba.

Publicada no Diário dos Campos em 06/10/2021, postada no Portal aRede em 03/11/2021 e no Blog da Mareli Martins em 21/01/2022, lida na Rádio Clube em 21/01/22.

Futebol. Sete anos. Decisão entre Operário e Coritiba. Estádio abarrotado. Cigarro aceso no braço e choro de dor. O pai sócio, após um jogo, quis acertar soco no juiz ladrão na hora de embarcar no ônibus.

Mais tarde, pai ex-sócio, assistir agora só passando com um adulto ou esperar a liberação no intervalo. Bonito em campo a mistura do preto e branco do “graxeiro” e o preto e vermelho do “pó de arroz”. Clássico Ope-Guá no Paula Xavier. Bandeiras rubro-negras tremulando na torcida da casa. Paixão instantânea. Depois o coração ficou tripartite, dois terços em preto e vermelho.

Copa de 70. No auditório da Jota-2, Tv colorida para ver o Brasil. A cada gol canarinho, uma explosão de gritos. Os 4X1 na Itália foi na casa de um colega da 4ª série do Regente. Quando acabou, o pai dele nos aboletou na Kombi e fomos para a rua. Descemos a Balduíno Taques viramos na Avenida. Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, no meu coração...

Dezesseis anos. Cortei torinhas de lenha, ajudava um sujeito a fazer carretos num velho Chevrolet e vendi laranja na rua. Saía de São José com uma gaiota (caixote de madeira sobre duas rodas revestidas com tiras de borracha). Fiz freguesia na Vila Liane e Vila Estrela. Gritos na rua, palmas nas casas conhecidas. Com o dinheiro paguei inscrição e comprei passagens para ir a Curitiba prestar concurso para a Aeronáutica. Fui estudar fora.

Férias de duas semanas em julho, dois meses e meio na virada do ano. Toda tardinha ia ao centro. Às vezes, filme no Império. No domingo, programação melhor no Ópera ou no Inajá. Ao lado do Império marcava ponto para tomar uma Cuba Libre.

Para subir na vida, férias e curso de datilografia duas vezes por semana. O tec-tec das máquinas de escrever e no rádio o desfile das mais pedidas.  No topo “Eu disse adeus”, do Roberto e “For once in my life”. Quase meia-noite, último ônibus para a Palmeirinha. No ponto final, ruas escuras, subir uma ladeira de pedras traiçoeiras e atravessar campo no Nossa Senhora das Graças.

Ponta Grossa triplicou a população. Tem shopping, beleza na Catedral, arranha-céus, o Fantasma faz propaganda e orgulha a cidade. Os mistérios de Vila Velha são revelados de modo diferente; a Furna só de cima. Tomara que a Lagoa ainda seja dourada ao entardecer.

Princesa dos campos ou rainha? Filho da segunda, amante da primeira, sonho com grande festa de 200 velinhas. E canto com Timóteo: Se algum dia à minha terra eu voltar, quero encontrar as mesmas coisas que deixei...

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Biografia dos meus pés

 

Texto de autoria de Sueli Maria Buss Fernandes, Professora aposentada, Ponta Grossa.


Lido na Rádio Clube de Ponta Grossa em 01/10/21, postado no Blog da Mareli Martins em 02/10/21, publicado no Correio Carambeiense em 09/10/21 e no Diário dos Campos em 22/06/2022, postado no Portal aRede em 20/10/2021.

 

Pequeninos, rosados e enrugados, eles chegaram. Aos poucos, mais rechonchudos, menos frágeis, pisoteavam a barriga da mãe e das avós quando, amparada pelas axilas, tentavam manter-me ereta, provocando risos que surgiam espontâneos e fartos. Meus pezinhos de criança palmilharam o trajeto de casa até o grupo escolar Júlio Teodorico, meias soquete e tênis, por anos seguidos. Aos domingos iam ao circo do Nhô Bastião, ao parquinho da praça ou subiam na roda gigante, em ocasiões especiais. Já usavam tênis maiores, faziam trajetos mais longos pelos corredores do Regente Feijó, atravessando a praça e rezando uma rápida Ave-Maria na Igreja do Rosário.

O tempo trouxe a juventude e com ela a permissão para usar saltos altos. Horas de ensaio com um livro sobre a cabeça buscando usá-los com elegância. Os pés se acomodaram muito bem dentro deles, sustentavam o corpo com leveza, dançaram valsas e boleros. Nus, pisaram a areia da praia, sentiram o frescor da água do mar. Andaram pelos bosques e campinas nos piqueniques de fim de semana, correram até o ponto de ônibus chegando quase sem fôlego até ele, para evitar atraso no trabalho.

O namoro, no banco em frente à Igreja São José nas tardes de domingo, se tornou mais sério e meses depois, vestida de noiva, meus pés desfilaram sobre o tapete branco até o altar.

Pés adultos enroscados em outros pés, o encontro de corpos e almas à procura do aconchego, na quentura da chama ardente do amor. As ruas da cidade passaram a sentir meus passos com um par de pezinhos ao lado dos meus, depois mais um par do outro lado. Era a vida que seguia em frente, se desenrolava, também andava. Vieram os passos céleres pelas escadarias da universidade. Havia pressa!  Aconteciam ao mesmo tempo em que davam aulas, iam à feira, às reuniões do colégio, lavavam, passavam, preparavam o jantar, mamadeiras, lancheiras... Estiveram em terras longínquas onde nunca cogitaram estar, terras com outros idiomas, costumes diversos, proveitosas andanças pelo mundo. E os pés, incansáveis, nunca me abandonaram. Foram eles que me colocaram na posição vertical e me conduziram pelos caminhos que a vida traçou. Após o fim, eles é que estarão na vertical, voltados para o firmamento, orgulhosos de sua jornada, de terem sido meu esteio durante uma vida inteira.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

A voz do silêncio

Texto de autoria de Rosana Justus Braga, revisora, Curitiba (natural de Ponta Grossa).

Publicada no Correio Carambeiense em 25/09/2021 e no Diário dos Campos em 20/10/2021, postada no Portal CulturAção em 14/09/2022.

De tudo, o que mais lembro é o silêncio da tarde, a sinfonia de insetos lá fora, o ressonar do avô no quarto ao lado, o relógio da sala a contabilizar o tempo. Na hora da sesta a rua também dormia seu sono breve, e a casa seria a própria morte, não fosse o ressonar do avô.

No quarto ao lado, a vida pulsava no peito da menina que se fazia de morta, os sentidos todos despertos, à espera do instante da ressurreição.

De repente, um tilintar na cozinha, um ruído de água na torneira, um avivar o fogo, logo o cheirinho de café coado invadiria os quartos e a vida voltaria a pulsar. Morte e renascimento diários era o que eu via na casa dos avós, nas férias escolares.

Gosto de pensar que a cidade natal dorme dentro da gente, como se fora a sesta da tarde à espera do que seja capaz de despertá-la.

O que me faz pensar em Proust, que viu o passado brotar de sua xícara de chá. A cidade, a infância, as pessoas, mas antes a emoção avassaladora até entender o que se passava, chegar na essência de tudo, reencontrar ali um tempo em que já nada mais subsistia, após a morte dos seres amados, a destruição das coisas, apenas o sabor e o odor permaneciam ainda muito tempo, como almas a penetrar o edifício imenso da memória.

A voz do silêncio sempre foi meu despertador pessoal, a me introduzir nas dobras, onde ficam as lembranças já esmaecidas.

Mas a roda da vida vai girando e, hoje, tenho quem me leve a viajar no tempo sem a precisão de silêncios. Netos. Netos que parecem não acreditar que avós já foram crianças, tal o empenho em querer ouvir as histórias do passado.

E eu me entrego, sem resistência.

Banho de chuva? Guerra de lama? Briga de rua? Chego a pensar que talvez exagere, mas não, as mãos esfoladas, as unhas encardidas, os joelhos ralados sempre foram a confirmação da coragem, do arrojo das ideias, das incursões destemidas mato adentro, dos sustos inevitáveis, da corrida desenfreada na hora do aperto.

É sob os alaridos de hoje que me vejo embarcar nesta nave do tempo, na companhia de uma plateia atenta e incrédula.

Quando eles se cansarem, tudo voltará ao silêncio da sesta.

Até que algo inesperado faça a memória vibrar outra vez.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Um cocho plebeu

Texto de autoria de Rosicler Antoniácomi Alves Gomes, Professora de Português e Inglês, Ponta Grossa.

Publicada no Correio Carambeiense em 18/09/21, postada no Portal aRede em 15/10/21.

Os frios de julho mais intensos, na região de Ponta Grossa, trazem-me à lembrança o cocho do galinheiro, que amanhecia com uma fina camada de gelo lacrando a superfície da água. Havia uma hierarquia entre as crianças para quebrar o gelo, e me lembro de algumas vezes em que a princesa do gelo era eu, antes de ser destronada pela criança mais nova que já estava apta a assumir o poder do riso, ante a novidade.

Nessa época eu ainda não tinha perdido também meu castelo, o que tem muito a ver com o mesmo cocho. O castelo, um abacateiro enorme, com infinitas alas (cada galhada que se estendia lateralmente com bifurcações suficientemente resistentes para sustentar o peso de uma “princesa”), era o cenário para o encantamento da infância, com minhas irmãs e vizinhas. Eu gostava de subir até os galhos ainda tenros que empinavam para o alto, formando uma copada de coloração mais clara — a torre — de onde eu podia avistar todo o reino (os arredores de Ponta Grossa) em várias direções: as baixadas sombreadas, ainda com natureza intacta, e as colinas ainda não tomadas por habitações humanas. E sentia o vento balançar os galhos que me sustentavam, e embaraçar meus cabelos finos, que nem conheciam condicionador, naquela época. Era esperado que um desses galhos finos, algum dia, vergasse ao meu peso. Mas isso nunca aconteceu. Creio que enquanto a princesa crescia, também a torre se fortificava.

Entretanto, certo dia, despenquei direto em cima do cocho do galinheiro. Fiquei sem fala (ou seria uma parada respiratória?), que só voltou com os brados da mãe ameaçando-me com o exílio, que me destituía do título de Alteza, da coroa, da vista da torre, e da infância. O primeiro patamar da subida, um toco de galho, que já era toco de tanto perder partes de sua extremidade ressequida pelo tempo, não suportou o peso da princesa que não queria amadurecer. Nunca esperei essa traição do bom e fiel toco de galho...

Nada mais de alturas. O exílio concedido a quem perde seus direitos de infante fica no rés do chão, aonde as fantasias flutuantes e balançantes não conseguem descer, restando apenas secas passadas sobre o eito da vida real (nada a ver com realeza). 

Hoje vejo o retalho de uma daquelas colinas, que se estende até o reino do fim do dia, onde o céu adormece mostrando, por uma fresta, o seu pijama de cores do ocaso, até que ela se vista com o brilho das luzes artificiais. Na fantasia ainda ardente em mim, lembram-me tochas de um exército acampado na fronteira do infinito, aguardando o toque de avançar para a conquista do derradeiro sonho.

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Privatizações

Texto de autoria de Murillo Emanuel de Lara, estudante de Administração da UEPG, Ponta Grossa.

Postada no Portal aRede em 06/10/2021.

Seu Joaquim estava em casa, era sexta-feira e sua filha Aline e o namorado dela, Jonatan, vieram para o café da tarde. Não é segredo para ninguém que Seu Joaquim não se bicava com o genro.

Estavam sentados no sofá enquanto as mulheres preparavam o café. Vez ou outra eles se olhavam, mas não tinham assunto; nenhum que os agradasse.

Foi quando Jonatan arriscou:

— E o senhor ficou sabendo da privatização dos Correios, Seu Joaquim?

— Sim, eu li algo sobre isso nos jornais. — Seu Joaquim era assinante fiel da Gazeta do Povo, recebia todos os dias em sua casa um exemplar do jornal impresso, mas ele estava começando a ler as colunas on-line, mas ainda estava engatinhando nesse processo.

— Pois é, né — comentou Jonatan —. Agora esse povo vadio trabalha.

— Como é, meu jovem? — perguntou Seu Joaquim se inclinando para a frente.

— Ah, esse povo concursado dos Correios. Todo mundo sabe que eles não trabalham e quando trabalham ainda não fazem direito. Quem sabe com essa privatização eles acordem, ou estarão logo no olho da rua.

— Você acha que é simples assim, rapaz?

— Não, claro que não. Mas já poupa o governo de ficar investindo neles.

— Sim, o governo não precisa mais investir, mas então quem que passa a ser o investidor direto? O povo com os novos valores cobrados.

— Sim, mas... — antes que ele pudesse terminar, Seu Joaquim continuou:

— E de onde você tirou esse papo de que eles não trabalham?

— Bom, uma vez uma encomenda minha atrasou cinco dias. Em uma empresa privada isso não aconteceria.

— E por causa de uma encomenda ruim você vai julgar todos eles?

— Bom...

— E quanto àqueles que ficarão sem emprego e têm família para manter?

— Acho que eles conseguirão outro emprego, né?

— Você acha? — perguntou Seu Joaquim sarcástico. — Meu jovem, eu que sou velho sei que isso é furada, e olha que eu aprendi ontem a como ver um vídeo no Youtube.

— Eu consigo ouvir vocês lá da cozinha — disse Aline. — Além do mais, pai, essa privatização vai gerar muitos empregos novos.

— Sim, mas e os que serão demitidos? Trocará seis por meia dúzia, minha filha.

— Pai, podemos ir comer, por favor?

— Tudo bem, vamos. — concordou Seu Joaquim. Mas quando ele se levantou, ouviu uma moto encostar na frente da sua casa.

— Eu vejo quem é — disse Joaquim indo em direção à porta.

Quando ele voltou para dentro, já estavam todos à mesa.

— Quem era, meu velho? — perguntou Marta.

— Era o carteiro com nossos boletos. — respondeu Joaquim olhando torto para Jonatan.


Heróis não morrem, são apenas esquecidos

Texto de autoria de Reinaldo Afonso Mayer , professor Universitário aposentado, Especialista em Informática e Mestre em Educação pela UEPG, ...