segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Quem rouba os nossos sonhos?

Texto de autoria de Francielly da Rosa, professora da rede municipal de Ponta Grossa e estudante de Letras na UEPG.

 

Postada no Portal aRede em 15/12/2021 e no Portal CulturAção em 18/05/2022, publicada no Diário dos Campos em 09/03/2022.


Era um dia ensolarado, dia comum e rotineiro para todos, menos para mim, pois depois deste dia nunca mais fui a mesma pessoa. Como bem sabemos em nossa cidade, mas não apenas por aqui, encontramos muitos andarilhos, pessoas que por diversas circunstâncias fazem das ruas lares e perambulam por aí. Neste dia em questão encontrei esta personalidade insólita, Dani, pelo menos é assim como a conhecemos aqui na região de Oficinas.

Todos os dias, sentada ao lado do supermercado Tozetto, ela acompanhava a rotina dos passantes que transitavam por ali, cumprimentando as pessoas alegremente. Dani já me conhecia, mesmo que pouco, pois eu usualmente fazia aquele percurso e neste dia cumprimentando-a como de costume me detive mais um pouco quando ela lançou certas palavras objetivando prolongar o diálogo.

Atrasei os passos, voltando alguns, e parei em sua frente para ouví-la. Confesso que fui pega de surpresa já que nunca havia conversado com ela, além dos cumprimentos de sempre. Entre os diversos assuntos abordados algumas palavras em especial me chamaram atenção, incitando em mim tamanha reflexão, mal sabia ela.

─ Pois é, menina! A vida da gente às vezes vira de ponta cabeça, sabe? A gente pensa uma coisa, planeja, mas aí parece que vem uma coisa, sabe? Tipo um furacão e leva tudo embora. Parece que a gente não pode sonhar! É! A gente não pode sonhar! ─ disse ela.

Pela primeira vez não soube o que dizer.  Vi-me a reclamar diante de diversas situações da vida e de repente meus “problemas” não eram nada. Lembrei-me das vezes mencionadas por ela em relação ao tratamento que recebia das pessoas, os olhares e caminhos desviados. Nos detivemos por algum tempo neste diálogo que terminou com motivações e sorrisos. Segui meu caminho com suas palavras ecoando em minha mente. “A gente não pode sonhar!”. Assim como ela, tantas outras pessoas, em condições iguais ou não, devem se fazer este mesmo questionamento. Se nós não podemos sonhar então me pergunto ─ Quem rouba nossos sonhos?

 

terça-feira, 16 de novembro de 2021

O Bielinha

Texto de autoria de Rosicler Antoniácomi Alves Gomes, Professora de Português e Inglês, Ponta Grossa.

Publicada no Correio Carambeiense em 20/11/2021 e no Diário dos Campos em 26/01/2022, postada no Portal aRede em 22/12/2021.

Minha Carteira de Trabalho contém a prova: com quinze anos de idade eu trabalhei no setor de polimento da Metalúrgica Santa Cecília, empresa da qual o trigésimo quarto prefeito de Ponta Grossa, Dr. Luiz Gonzaga Pinto, era sócio proprietário e diretor.  Não durou muito minha lida com bielas, anéis e outras peças que saíam das minhas mãos inexperientes. Acabei desistindo, com medo de “matar” mais peças do que poli-las, mesmo após um fato ocorrido nas vésperas das férias coletivas, às quais eu nem fazia jus plenamente. Na confraternização oferecida aos funcionários, regada a refrigerante com cachorro-quente, e com discurso do diretor, eu ouvi pela primeira vez a expressão “não dar o peixe, mas ensinar a pescar”. Na minha ingênua adolescência, isso me pareceu a melhor frase para se dizer a qualquer jovem. A imagem de um adulto experiente, se prontificando a ensinar um novato a “pescar”, não um peixe, mas o seu ganha-pão, me veio à mente como se fosse uma missão sacerdotal (hoje, essa frase me causa estremecimento, pois imagino as pessoas que a ela se referem, entregando a um pobre coitado um manual de pesca, uma vara de pescar, sem nenhuma isca, e o abandonando às margens de um rio podre). Apesar da frase sacerdotal, alguns dias após o retorno ao trabalho, eu me demiti. O ambiente do setor de polimento não era o cenário idealizado por mim. O ideal eu havia descrito, antes de conhecê-lo, num conto que escrevi para O Bielinha, um periódico, que minhas irmãs, funcionárias do setor administrativo, ajudavam a redigir. Não tenho nenhum arquivo do conto, nem me lembro do título. Inspirei-me em um fato que havia circulado pela fábrica como misterioso, relatado por minhas irmãs: haviam encontrado algumas peças ainda sem polimento no encanamento de esgoto de um banheiro. Criei um apólogo, cujo enredo apresentava o encontro de um anel e uma biela, que, num curto e idílico momento, cada um em sua bandeja de transporte para o setor de polimento, haviam se apaixonado. Cientes de que partiriam, após o procedimento, para destinos desencontrados, os apaixonados optaram por uma fuga, saltando das bandejas, tentando interferir em seus infelizes destinos. Uma aventura que acabou num trágico “afogamento” nos esgotos da fábrica.

            O contador da empresa, Sr. João Teles, apreciou a narrativa e efetivamente tentou me ensinar a pescar: emprestou-me, por intermédio de minha irmã, alguns livretos que ele próprio gostava de ler. Pesquei neles com muita satisfação.

 

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

O beijo do fim

Texto de autoria de Rosicler Antoniácomi Alves Gomes, Professora de Português e Inglês, Ponta Grossa.

Lida na Rádio Clube em 12/11/21, postada no Blog da Mareli Martins em 12/11/21 e no Portal aRede em 08/12/21, publicada no Correio Carambeiense em 13/11/21.

Festinha de garagem simples, comum na Ponta Grossa dos anos setenta, animada com um toca-discos sem DJ, refrigerantes e petiscos. Cada um que estivesse perto se mobilizava para trocar o vinil e engolir um petisco.

A adolescente, vencendo a timidez, convidara para o seu aniversário o menino que ocupava todos os confins de seus pensamentos e fazia vibrarem as fibras estreantes de seu coraçãozinho tomado de assalto pela puberdade.

Aos domingos, o “point” da época, no Bairro Oficinas, eram as matinês do Cine Teatro Pax. As moças chegavam cedo, pois queriam estar acomodadas, “guardando” poltrona ao lado, para os “paqueras”. As escadarias de entrada, por onde os viam entrar, desembocavam, como até hoje, bem à frente dos blocos de poltronas com assentos acolchoados e braços separando umas das outras. Torciam para serem vistas logo, pois aquele subir e descer de “paqueras” pelas alas entre os blocos podia levá-los para outra poltrona “guardada”.

Certo domingo, sem optar por subir e descer pelas alas, ele viera sentar-se ao lado dela como uma abelha vai a uma flor que exala um perfume de néctar. Num momento despretensioso, disputara com ela o apoio de braço da poltrona e deduziu: “Não sei se é meu ou seu, pois está entre nós dois... Podemos ser sócios?” E tomou-lhe a mão, sem mais nem menos. O coração dela quase parou. O filme podia ter sido uma lembrança que ela jamais esquecesse, mas tinha esquecido de prestar atenção, nem sabia que filme era. Quando o filme, fosse qual fosse, acabou, ele se despediu amavelmente, e foi ao encontro de amigos.

Nem acreditara que ele viria à sua festinha, mas estava lá. Chegara bem tarde, com uns amigos, quando outros já estavam indo embora. Antes de ir embora também, achou que podia conceder uma dança à aniversariante... Talvez valesse a pena conceder também um sorriso que não fosse muito comprometedor. Talvez achasse que uma menina tão tímida pudesse entender tudo errado. Havia poucas meninas tão tímidas nos anos setenta, como saber o que estaria pensando essa? Ela o acompanhou até a saída, pois ele não largara sua mão. Ao despedir-se, tocou sua boca com um beijo quase casto. E se foi.

Tudo se foi, com aquele beijo, enquanto ela quase desfalecia. Pois foi colocado em sua boca, como se coloca um bilhete embaixo da porta. O coração dela sabia que embaixo da porta não são colocados bilhetes de começo. Ela não era menina para um cara popular, disputado por garotas mais “descoladas”. Aquele era um bilhete de fim.

 

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Histórias que nossas ruas contam

 

Texto de autoria de Wilson Czerski, militar da Aeronáutica e jornalista aposentado, residente em Curitiba.

 Lida na Rádio Clube em 05/11/2021, postada no Blog da Mareli Martins em 05/11/2021, no Portal aRede em 01/12/2021 e no Portal CulturAção em 11/05/2022, publicada no Diário dos Campos em 17/11/2021.

Nem só de grandes e belas avenidas vivem as cidades. Visconde de Mauá, Ernesto Vilela, Monteiro Lobato, Souza Naves, Carlos Cavalcanti, Vicente Machado e Balduíno Taques são exceções. Há centenas de outras: longas, curtas, largas, estreitas, pavimentadas com asfalto, paralelepípedo ou só de terra. Ruas que sobem e descem, como a vida com os seus altos e baixos. Porém, enquanto para muitos a vida só tem baixos, em Ponta Grossa parece que as ruas só sobem.

Em algumas o sol nasce, em outras ele se põe. Umas se perdem de vista, outras tantas acabam logo ali. Quase retas ou sinuosas, movimentadas no centro ou vazias na periferia. Aqui, bem iluminadas, árvores, belas construções e cheias de vida. Não longe, esburacadas, esquecidas, feias e tristes.

Artérias vitalizadas por automóveis, ônibus ou repletas de gente. Testemunham muitas festas, do Carnaval ao futebol, passando pelos desfiles cívico-militares, abertura da Münchenfest, demonstrações de fé no Corpus Christi e protestos políticos. Há bares, restaurantes, o agito do comércio. E o uivo urgente e angustiado das sirenes das ambulâncias, dos bombeiros e da polícia.

Damos tanto valor às ruas que nos apropriamos delas. Nem sempre orgulhosamente. Mas é a minha, não importa suas qualidades ou defeitos.  Lá na “minha rua” tem ou deixa de ter tal coisa. Todas têm dono. A rua da Fulana está linda com aqueles ipês amarelos. A rua do meu cunhado está abandonada, só buraco.

Ruas de encontros e desencontros, coincidências e acasos brincando de destino. Ruas que tanto ocultam como revelam muitas histórias. Dos que por elas transitam ou nelas vivem. E também de si mesmas. A começar pelas placas identificadoras. Em cada uma delas, um personagem, um lugar, uma referência da natureza. Políticos, pioneiros, professores, militares, cidadãos destacados. Gente que a maioria nunca ouviu falar sobre os seus feitos. Mas estão lá para nos dar a direção, designar endereços, apontar moradias e instituições.

Ruas, muitas delas em que se nascia e também se morria. Agora isso ficou no passado, pois se nasce nas maternidades e se morre nos hospitais. Se bem que ainda são palco das tragédias do trânsito e da violência perpetrada pela insanidade humana.

Pelas ruas, deixamos pegadas das nossas dores e o pó de sonhos mortos. Marcas de passadas firmes da juventude e de maratonistas, atropeladas um dia por passos trôpegos, cansados pelos muitos quilômetros percorridos na existência. Única rua que vimos o início, porém, desconhecemos onde termina.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Caderno de receitas

Texto de autoria de Sueli Maria Buss Fernandes, Professora aposentada, Ponta Grossa.

Publicada no Correio Carambeiense em 30/10/2021, postada no Portal aRede em 24/11/2021, e no Portal CulturAção em 12/10/2022.

Quase totalmente azul, não fossem os pés e os puxadores das gavetas serem pretos, aquele armário de cozinha permaneceu estático e útil, no mesmo canto, por muitos anos. Móvel simples, composto por duas portas e duas gavetas. A tela de arame na metade superior das portas ventilava seu interior. Não havia geladeira e o armário, resignado, executava as duas funções: acomodar as louças e proteger os alimentos embora sem refrigeração.

Numa das gavetas os talheres. Na outra a toalha de mesa e o caderno de receitas. Com sua capa xadrez, folhas amareladas, esparsas manchas de gordura e alguns pingos de massa, provavelmente de cuca de banana, ele sobrevivia. Receitas registradas com letra caligráfica, a data e a identificação de quem a compartilhou, geralmente um parente, uma comadre ou vizinha. Sequilhos, pudim de mandioca, bolo de fubá, cabrito assado com batatas, costela na cerveja, empadão... O caderninho deitava sobre o trigo espalhado na mesa de madeira, que hoje seria chamada de “ilha”, dividindo espaço com o açúcar, fubá, ovos, fermento, margarina e logo um cheirinho bom tomava conta da casa quando a forma deixava o forno do fogão Econômico.

Assar alcatra e linguiça aos domingos era um costume que perdura. Era imperioso que a linguiça fosse do Açougue do Adi, a mais famosa da cidade, acompanhada de várias saladas. Ainda se podia consumir palmito in natura que os caminhoneiros traziam do litoral para a capital e cidades do interior. Após uma fumaceira num barril metálico no quintal, usado como churrasqueira, a carne era servida e o domingo se iluminava.

Alcatra é um corte nobre, carne macia e suculenta. Junto ao osso, um naco do filé mignon ainda mais macio. Entrelaçada num espeto tridente, a carne esticada era levada a assar no calor da brasa incandescente. Ao ser servida no próprio espeto, em pé sobre a mesa, formava uma cortina densa que se interpunha entre as pessoas dos dois lados da mesa, mas que logo se tornava transparente e esfarrapada. Ninguém ouvira falar em Pavlov e nem sabia o que era reflexo condicionado. A “baba” era aceita naturalmente.

Ponta Grossa não possuía um prato típico para chamar de seu. Foi assim que numa decisão coletiva e oficial, elegeu-se o “Alcatra no espeto” como o prato típico ponta-grossense. O tempero dessa perdição gastronômica estava anotado naquele caderninho de receitas.

 

Heróis não morrem, são apenas esquecidos

Texto de autoria de Reinaldo Afonso Mayer , professor Universitário aposentado, Especialista em Informática e Mestre em Educação pela UEPG, ...