segunda-feira, 9 de maio de 2022

Papai Noel HM

 Texto de autoria de Lenita Stark, artista visual, Ponta Grossa. 

Publicada no Diário dos Campos em 11/05/2022, postada no Portal aRede em 18/05/2022 e no Portal CulturAção em 14/06/2022.

Antigamente, a magia do Natal em Ponta Grossa tinha como referência a chegada do Papai Noel HM (Lojas Hermes Macedo). O Bom Velhinho chegava de trenó conduzido por renas ─ em cima de um caminhão. Era esperado pelo povo com muita ansiedade, e os jornais anunciavam, em páginas inteiras, as promoções: brindes e muita festividade para o público.

A sua vinda no Natal tornou-se uma tradição. Um imponente e iluminado pórtico montado na esquina da loja, dias antes da sua chegada, encantava adultos e crianças, trazia alegria, emoção e esperança na celebração do nascimento do Menino Jesus. O desfile do Natal com o seu protagonista atraía muita gente no centro da cidade ─ era uma atração encantadora para os ponta-grossenses.

se passaram 80 anos desde a fundação, em nossa cidade (1942), da terceira unidade do Grupo HM; e já faz 25 anos que ficamos órfãos do Papai Noel HM, no comércio local (1997). Desde então, nenhuma outra empresa na cidade teve iniciativa em realizar festividade natalina semelhante, que trazia muita alegria, brilho e encanto nessa época para a coletividade.

As atrações natalinas oferecidas pelo comércio, resumiram-se apenas em decorações de vitrines e fachadas ─ sem rituais de interação entre empresa, consumidores e colaboradores ─ ação de promover confraternização, reflexão e bem-estar da comunidade, nessa festiva época do ano.

Analisando a movimentação da nossa área urbana, veremos que em um passado ─ não muito distante ─ tínhamos mais atrativos acerca de entretenimentos para a família, não somente nas festas de fim de ano como também em outros eventos. Nos registros fotográficos, vemos multidões nos acontecimentos sociais, filas imensas nos cinemas, grande movimento nas lanchonetes, nas praças e nas saídas de missas. Vivemos uma dinâmica na revolução tecnológica ─ o shopping chegou e esvaziou nossas praças e ruas. Levou o Papai Noel para lá, porém, em vez de trenó e renas, ele se posiciona num trono para receber as crianças e seus pedidos. O lúdico da poesia do Natal ficou no passado.

A modernidade transfigurou a magia, agora, são luzes pisca-piscas que atraem olhares. Smartphones estruturando o conhecimento e desestabilizando o comportamento humano. O homem ancorou no tempo e espaço para lazer e diálogos ─ são as redes sociais: prática social que leva a humanidade a se afastar cada vez mais do seu semelhante e, nas nossas ruas e praças, apenas perspectivas de humanos, passantes, perdidos na essência.

 

segunda-feira, 2 de maio de 2022

O caso dos livros desaparecidos

Texto de autoria de Rosicler Antoniácomi Alves Gomes, professora de português e inglês, Ponta Grossa.

Postada no Portal aRede em 03/05/2022.

Maravilha de evento: 4ª Leitura na Praça, em São Mateus do Sul, no domingo, dia 24. Escritores ponta-grossenses foram convidados para a Tenda dos Escritores e para abrilhantarem o evento com apresentações artísticas. As vendas dos livros superaram as expectativas (afinal, vender livros nunca é o feito mais conquistado por escritores nesses tempos sombrios). Silvestre Alves foi o escritor que voltou para Ponta Grossa sem nenhum dos exemplares de Arthur na Província dos Tropeiros que havia levado para vender. Vendeu tudo? Quem dera! Sumiram! E ele ficou muito bravo? Capaz! Voltou se vangloriando: “Roubaram meus livros! Quem mais teve seus livros roubados? Hein? Só eu! Vendi três, e o restante, roubaram!”

Na tenda, uma “joaninha”, Dione Navarro, autografava seu A Galinha que queria ser perfumista; Marivete Souta, a sua coleção Chiquinho; Jacqueline de Matos rodeada de leitores interessados em seus História de Passarinho e Venha conhecer o Paraná; Marlei Vanin, e o seu Marla e a Lua. Eu, já sem os dois exemplares que havia levado de Mistérios da Terra sem Mal, ainda com alguns Causos e lendas do Paraná, cujo coautor, Silvestre Alves, mal ficou na tenda pois estava em duas apresentações artísticas: da Caravana da Cultura, com Dione e Marivete (Chiquinho); e do grupo NaVozdoVento, com Morgana Sauka, Guilherme Puchta e eu, em Na voz do Vento sob a luz da Lua, leitura poética de obra inédita minha. Abrilhantou também o evento nossa querida contadora de histórias Lucélia Clarindo, encantando a plateia de crianças e adultos. Livros roubados? Só do Silvestre.

Dois dias depois, se esclarece o mistério do “roubo” dos livros, num áudio pelo whatsapp da querida Mari Dalva, professora e leitora contumaz que, acompanhada de sua linda filha, nos encantaram num gratificante contato de escritores com as leitoras, que se despediram com uma braçada de livros.

Ela roubou os livros?! Levou-os para casa, sim, mas por mera distração. Para receber os abraços, ela havia colocado a pilha de livros comprados sobre a mesa em que estavam os livros dos escritores, e ao retomar a pilha, não percebeu que estava ainda mais pesada.

Numa feliz interferência, o destino fez os livros ponta-grossenses cruzarem o Iguaçu, fronteira da acolhedora São Mateus do Sul com Antônio Olinto, seguindo os caminhos das tropas, e encerrando o “caso” com uma proposta do autor para desenvolverem um projeto de leitura na escola da professora.

 

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Na Casa Branca da Serra

Texto de autoria de Rogério Geraldo Lima, empresário, redator e radialista, Palmeira.

Publicada no Diário dos Campos em 04/05/2022, postada no Portal aRede em 12/05/2022 e no Portal Culturação em 21/06/2022.

Quando o tenente Manoel José de Araújo fez a doação das terras para construção de uma igreja e o estabelecimento de uma povoação no seu entorno, em 7 de abril de 1819, o gesto ficou marcado como ato oficial do nascimento de Palmeira. O doador tinha sua propriedade e residência no alto de uma das elevações, transpondo o rio Forquilha. A data de 7 de abril não só entrou para a história como foi oficializada.

Boa parte das tratativas para a doação entre o donatário e o padre Duarte dos Passos, até então vigário da Freguesia do Tamanduá, que estava em decadência, com certeza, aconteceram na casa do tenente.

Anos mais tarde, já com a igreja em construção e o desenvolvimento da nova freguesia, Domingos de Araújo, um dos filhos do tenente, construiu uma imponente casa, com sete janelas frontais em arco, em local próximo à casa do pai e bastante privilegiado, de onde era possível vislumbrar o povoado em progresso.

A construção ficou conhecida como a Casa Branca da Serra, e foi consagrada no poema do alagoano Guimarães Passos, autor do famoso “Horas Mortas”. Passos fez os versos em referência e reverência a uma das filhas de Domingos Araújo, a jovem Antônia, por quem se apaixonou quando ficou hospedado na casa, em 1894.

O poeta havia se alistado nas forças dos Maragatos e chegou a compor no governo revolucionário que se instalou no Paraná quando da Revolução Federalista, no entanto, diante da vitória das forças legalistas, os pica-paus, foi obrigado a fugir apressadamente de Curitiba e buscar abrigo em Palmeira.

Passos ficou refugiado na casa da família Araújo durante alguns dias e depois seguiu para a Argentina, onde exilou-se. Foi lá que escreveu os famosos versos do poema “Na casa branca da serra”, posteriormente musicado por Emydio Pestana e que virou clássico entre os seresteiros, gravado, entre outros, por Vicente Celestino e Inezita Barroso. “Na casa branca da serra / Que eu fitava horas inteiras / Entre as esbeltas palmeiras / Ficaste calma e feliz...

A casa da Chácara Palmeira pertence hoje à família Cherobim e é lá que é fabricado o famoso e apreciado Queijo Palmeira, em formato de porungo, outra marca registrada da cidade que há 203 anos avança em seu desenvolvimento, sob os olhares atentos e, vez por outra, saudosos, das sete janelas da Casa Branca da Serra.

 

terça-feira, 19 de abril de 2022

Bem-vinda de volta ao lar

Texto de autoria de Camila Pasetto Kiapuchinski, bacharel em Serviço Social, empresária na área de alimentos, Ponta Grossa.

 

Postada no Blog da Mareli Martins em 22/04/2022, no Portal D'Ponta News em 24/04/2022 e no Portal CulturAção em 31/05/2022, lida na Rádio Clube em 22/04/2022.

 

BR 376, sentido Ponta Grossa, aprecio à esquerda um lindo e imenso paredão de pedra, o Arenito Vila Velha, localizado especificamente entre Palmeira e Ponta Grossa (vista para sul), o paredão me anuncia os poucos quilômetros faltantes para chegar à minha terra natal.

Dentro do carro, a respiração já muda, estou ansiosa pela chegada, por vezes vindo de perto, Campo Largo e Curitiba, por vezes voltando de cidades mais distantes, como Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Mas o suspiro diante do paredão é sempre o mesmo, independente do tempo que fiquei distante de Ponta Grossa ou do lugar em que estava.

Aqueles arenitos me permitiam já sentir o forte abraço de meu amado, as boas vindas de meus familiares e o cheiro da mesa posta me aguardando para o café, almoço ou jantar.

“O que de tão especial tem nesta cidade?” Por vezes me perguntavam, pois eu passava a semana contando os minutos para o final de semana chegar. “Tem meus queridos, meu amor, minhas histórias, minhas mais doces lembranças de infância.”

Ao cruzar o Memorial Ponta Grossa, o portal de uma das entradas para a cidade, o qual representa a presença dos tropeiros, através da Casa da Telha, e dos Jesuítas, pelo formato de capela, meu coração já batia em outro ritmo, na certeza de que seria mais um final de semana especial.

Até que um belo dia, ao contemplar aquele paredão voltando de Curitiba, a longa respiração foi acompanhada por algumas lágrimas.

“Estou voltando, terra amada! E agora é pra ficar!”

E ao cruzar o memorial, era como se eu pudesse escutar: “Bem-vinda de volta ao lar''. Diferente de pensar apenas no final de semana, me vem em mente que agora é a hora de colocar os novos projetos em prática e iniciar um novo capítulo da minha história, na cidade onde os primeiros foram escritos.

Como diz o ditado “O bom filho à casa torna”. Pois então, aqui estamos, fazendo morada, fazendo história, construindo um futuro melhor, em especial para nosso filho, que há dois anos também começou a escrever sua história na terra de seus pais, na querida Ponta Grossa que também acolheu três de seus quatro avós, como queridos filhos seus.

 

 

Heróis não morrem, são apenas esquecidos

Texto de autoria de Reinaldo Afonso Mayer , professor Universitário aposentado, Especialista em Informática e Mestre em Educação pela UEPG, ...