terça-feira, 12 de abril de 2022

As reformas

Texto de autoria de Luiz Murilo Verussa Ramalho, servidor do Ministério Público Estadual, residente em Ponta Grossa.

 

Postada no Portal aRede em 26/04/2022.

 

 Marco Polo foi até a Ásia do mundo atrás do ouro e da glória; José Marcos foi até a Ásia da cidade atrás das glórias de uma cesta básica.

Sem esquadrão nem caravela, entre José Marcos e a cesta básica interpunha-se a distância de setecentos e trinta e seis reais e noventa e cinco centavos em dezembro de 2021, segundo os índices empregados pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, que José Marcos nunca frequentou. Mas talvez achasse mais em conta, e por isso ia de mercado em mercado, de calculadora na mão ─ aqui o feijão mais barato, ali a farinha mais acessível, ─ e assim via fugir velozmente o magro orçamento familiar.

Um desses mercados anunciava eletrodomésticos, na televisão full HD a equipe econômica de uma holding expunha ao público a analogia sazonal: o orçamento público é como o doméstico, carece arrecadar mais do que gastar, e quando a coisa aperta, afia-se a lâmina para os cortes necessários.

Como o orçamento doméstico. José Marcos chefiava os três poderes de seu lar ─ um filho anêmico, o outro com um pé torto ─ porém jamais fora o relator de nenhuma Lei de Diretrizes Orçamentárias, não se lembrava de haver interferido na taxa Selic para modular as taxas dos juros bancários, os valores das emendas impositivas jamais passaram por suas mãos. Em nada disso pensou, já se afastara do aparelho e comparava os preços do fubá mimoso.

A tarde já ia avançada quando José Marcos, carregando sacolas que continham o sustento familiar, entrou no último estabelecimento, mas ao passar pela porta do Atacado foi colhido pela surpresa. Não via os corredores habituais, as prateleiras fornidas de gêneros alimentícios. Era uma sala de reunião com meia dúzia de homens e mulheres vestidos com bom gosto. ─ “Viemos aqui por você, José Marcos, ─ disse o mais velho ─ para te explicar as Reformas que faremos no Brasil para beneficiar a sua família.” ─ José Marcos achou que o confundiam, deu meia-volta e passou pela porta por onde entrara, mas deu no mesmo lugar, com as mesmas pessoas. ─ “Era só o que faltava, ─ pensou ele ─ vieram me acusar de alguma coisa, mas bandido eu não sou não, apesar de que chance não faltou, eu que não quis.”

─ “Fique tranquilo, ─ disse outro homem, mais jovem ─ só queremos que você entenda as Reformas.”

José Marcos nunca mais voltou para casa. Morreu e foi enterrado como indigente, disseram uns; fugiu com a amante, sussurraram os mais maliciosos. Todos estavam errados. Nem vivo, nem morto, José Marcos fora simplesmente tragado pela espiral inflacionária.

 

terça-feira, 5 de abril de 2022

Verão de lembranças

Texto de autoria de César Delgado, comerciário, Ponta Grossa.

Postado no Portal Culturação em 12/04/2022, e no Portal aRede em 13/04/2022, publicado no Diário dos Campos em 17/08/2022.

Em um dia atípico de verão em Ponta Grossa, onde se acaba suando na sombra, embora relutando, o dever me faz sair de casa, andando eu na velha e quente Avenida Dr. Vicente Machado, que com o trânsito da hora do almoço parecia tornar a sensação de calor maior ainda; vejo um refúgio do outro lado da via, a suntuosa Igreja do Sagrado Coração, conhecida por "igreja dos polacos".

Ao entrar no recinto do templo, logo vem o frescor, e o encontro com uma atmosfera diferente, quase me esquecendo da correria e da "muvuca" do lado de fora;  sentei-me para não destoar de alguns fiéis, que ali rezavam, e quotidianamente rezam como "guarda de honra" do Santíssimo Sacramento, nesse santuário dedicado a adoração perpétua.

A imponência e a beleza do templo  levam naturalmente a se voltar para ao alto, e a vista a terminar lá no fundo, no altar mor onde fica o trono da adoração. Mas um detalhe desperta minha atenção: ao meu lado esquerdo vejo o quadro de Nossa Senhora de Czestochowa, padroeira dos poloneses, e sinal visível da história e tradição dos imigrantes na cidade. Como não me lembrar das muitas fotografias em preto e branco da minha família materna? Das "estórias da tal Polonhia" e causos a mim tantas vezes narrados? Do “pirogue” e dos pratos típicos na família, ou do som da palavra "caroça" no sotaque inconfundível da minha saudosa e querida avó? Dos costumes muitas vezes herdados que sem perceber repito inconscientemente no dia a dia?

Saudades daqueles que nem conheci, mas que sem dúvida eu não existiria se não fossem eles, ao mesmo tempo que aflora um sentimento de uma terna gratidão e em sua memória. Agora revigorado, no corpo e sobretudo no coração, pego minha bolsa e crio coragem, como meus antepassados, para enfrentar. Já não mais para me mudar para um novo mundo, me adaptar a uma cultura, língua ou país, e nem simplesmente enfrentar um verão atípico ponta-grossense rumo a minha jornada. Mas, sobretudo, de honrar mais e valorizar o seu legado de fé, honra e trabalho.

 

terça-feira, 29 de março de 2022

Distopia

Texto de autoria de Marcelo Derbli Schafranski, médico reumatologista, Ponta Grossa.

Publicada no Diário dos Campos em 01/06/2022.

Da sacada observo a Praça Barão do Rio Branco. A obrigatoriedade de permanecer em casa nos leva a executar tarefas que habitualmente não faríamos. Pesquisar quem foi o Barão, por exemplo. Surpreendo-me. Advogado, entre outras várias profissões, e patrono da diplomacia brasileira. Já se vão quase sessenta anos desde que para cá me mudei. Nunca vi a praça tão vazia. Arrepiante. Um inimigo invisível e imprevisível segue livre. Um vírus. Por extenso, coronavírus; abreviado, COVID-19. Onde há diálogo, se ouve esse nome.

Ligar a televisão não ajuda muito ─ atrapalha. A era da informação trouxe consigo, além de um oceano de notícias cujo acompanhamento é praticamente impossível, as notícias falsas. Tablet não uso e meu celular faz apenas ligações ─ sou um velho não muito afeito à modernidade. Mas não escapei de conectar a internet ao computador de mesa.

Por outro lado, tenho paixão pelo cinema ─ sinto muito a sua falta. O amor pela sétima arte iniciou com as belas atrizes dos anos 60. Não havia como não se apaixonar. E o cenário atual é cinematográfico, fantástico, ficcional, diria até mesmo surreal. Lembro-me do Cine Inajá, na Sete de Setembro, onde assisti ao filme “Epidemia”. Estamos vivendo o seu enredo como pequenos “Dustin Hoffmans”.

A atmosfera impele-me a ampliar ainda mais o hábito da leitura. Espero que as novas condutas não nos conduzam ao cenário das duas mais famosas distopias da literatura: Admirável Mundo Novo, de Huxley e 1984, de Orwell.      

Comércio fechado, confinamento, isolamento social, quase que a proibição do contato físico entre as pessoas. Uso de máscaras, luvas e outras formas de proteção, algumas com fundamentação científica, outras que beiram o patético. Até mesmo o uso do dinheiro, em cuja nota a face do citado Barão já esteve um dia estampada, está sendo desencorajado pelo risco de contágio.

O controle social nunca foi tão intenso, mas desta feita, para o bem. Entretanto, diferentemente do “Grande Irmão” de Orwell, que a tudo via e tudo fiscalizava, hoje somos todos pequenos irmãos em mútua colaboração. E, como o Selvagem de Huxley, que pretendia retornar ao seu lar e aos seus velhos hábitos de vida, desejamos também agora, como nunca, nos tornarmos novamente humanos em sua plenitude.

Escrevo estas palavras em abril de 2020, auge da pandemia. Mas tenho a convicção de que Ponta Grossa tudo superará e, em breve, comemoraremos aliviados o bicentenário do nosso município.

 

segunda-feira, 21 de março de 2022

Quase Jorge

Texto de autoria de Sueli Maria Buss Fernandes, Professora aposentada, Ponta Grossa.

Postada no Portal aRede em 06/04/2022 e no Portal CulturAção em 08/04/2022.

O primogênito de meus avós paternos Luísa e Pedro já tinha seu nome escolhido desde que ela viu seu ventre crescendo pouco a pouco e percebeu que gerava um filho. Não havia aparelhos de ultrassom que detectassem o sexo dos bebês, em 1920. Contudo, ela sentia que seria um menino. As senhoras mais experientes pressagiavam que, pela forma que a barriga tomava, seria possível determinar o sexo do bebê. Faziam conjeturas usando fio e agulha virgens, balançando como um pêndulo sobre a palma da mão da gestante. Tudo levava a crer que seria um menino. Nasceria no Brasil, terra que a família escolheu quando emigrou da Rússia. Na Rua Bahia, Bairro Órfãs, uma espaçosa casa de madeira era sua morada. A janela do sótão alto, um mirante.

As previsões se fizeram realidade e um brasileirinho alemão-russo, forte e saudável, nasceu. Dali avistava os verdes Campos Gerais refletindo no verde dos seus olhos. A família de católicos fervorosos já pensou no batizado do pequeno para estar alinhada com as leis da igreja. Na pia batismal da Igreja São José recebeu o primeiro sacramento de um cristão. Era costume da época delegar ao padrinho a incumbência de fazer o registro civil do afilhado. Vó Luísa salientou o desejo de dar ao seu recém-nascido o nome de Jorge. Voltando do cartório, o padrinho tinha em mãos a certidão de nascimento daquele que viria a ser o meu pai. Para surpresa dela, o menino foi registrado com o nome de Adão, o mesmo nome do padrinho. Meus avós engoliram o amargor da constatação com um copo de água açucarada, mas não o desaforo do compadre pela imperdoável atitude. Sempre chamaram-no de Adam dentro da família. Fora dela o nome da certidão foi sendo escrito nos boletins escolares da Escola Verde (hoje Colégio Santana), no serviço militar, nas atividades sociais e esportivas do Clube Palmeira, onde jogou futebol e compôs a diretoria por algum tempo, no registro de casamento, de nascimento dos filhos e na placa do seu comércio “Sapataria Adão”.

No triângulo formado pela confluência das ruas Rio de Janeiro e Henrique Degraf, atrás do Asilo São Vicente de Paulo, o endereço era conhecido por inúmeras pessoas que utilizavam seu trabalho na reforma de calçados. Não era Jorge, mas foi um cidadão ponta-grossense que honrou o nome que lhe foi dado à revelia. E o soldado Adão Buss  honrou também a pátria como combatente na Segunda Guerra Mundial.

 

segunda-feira, 14 de março de 2022

Toca das onças

Texto de autoria de Mário Francisco Oberst Pavelec, técnico em agropecuária, residente em Ponta Grossa.

Postada no Portal aRede em 30/03/2022 e no Portal CulturAção em 08/04/2022.

O Tropeirismo foi uma das mais relevantes atividades econômicas para o desenvolvimento da região dos Campos Gerais.

Gado vindo do sul era, muitas vezes, invernado em nossos pastos naturais, para depois ser vendido em Sorocaba, ou outras cidades do interior paulista.

Mas o que pouco se comenta é que esse também era um caminho de volta, aonde os tropeiros retornavam com mercadorias e dinheiro, muito dinheiro, resultado da venda dos animais. Também sabedores desse fato, salteadores rondavam o caminho, buscando oportunidades para subtrair esses recursos.

Em sua grande maioria, estas onças de prata e de ouro, dinheiro corrente na época, eram armazenados em alforjes, nas selas dos cavalos, distribuídos entre os chefes das tropas, para permitir uma parcial proteção desses valores, pois, caso um fosse atacado, os outros poderiam buscar fuga e proteção, preservando suas vidas e as onças.

Por inúmeras vezes, os capatazes desviavam um bom tanto dos caminhos tradicionais da trilha, para o leste, buscando as proteções que as rochas da Escarpa Devoniana ofereciam. Muitos buracos, fendas e pequenos córregos, que ocorrem no arenito, eram locais perfeitos para esconder seus tesouros para serem recuperados tempos depois.

Mas nem tudo é perfeito. Por ser uma região muito ampla, com sítios muito parecidos, córregos e vegetação suscetíveis às intempéries, os capatazes, não raras vezes, não conseguiam encontrar as “tocas das onças”, perdendo-se então esses tesouros. Acredita-se que, na região do rio São Jorge, até as cabeceiras do rio Tibagi, é possível encontrar as tocas das onças ainda intactas, preservadas, e com todo o conteúdo de seus tesouros.

Os tropeiros já se banhavam na Mariquinha, no Buraco do Padre, São Jorge etc., muito antes desses se tornarem os pontos turísticos tão característicos de nossa região. Porém, mais que o refresco, esses locais serviam de referências para que as tocas das onças fossem recuperadas.

Poucos conhecem essa história, pois ela é repassada de pai para filho, dentro das famílias dos tropeiros capatazes, com severas recomendações para que não se espalhe àqueles que não teriam o direito a recuperar as onças. Reza ainda a lenda que uma maldição era proferida sobre o ouro e a prata, para, caso não fosse encontrada por quem de direito, trouxesse miséria e não riqueza.

 

Heróis não morrem, são apenas esquecidos

Texto de autoria de Reinaldo Afonso Mayer , professor Universitário aposentado, Especialista em Informática e Mestre em Educação pela UEPG, ...