segunda-feira, 10 de julho de 2023

Giovanni Rossi

Texto de autoria de Sílvia Maria Derbli Schafranski, advogada e Mestre em Ciências Sociais pela UEPG, residente em Ponta Grossa.

Postado no Portal aRede em 11/07/2023.

Palmeira é uma cidade do interior, pacata e acolhedora, que esconde muitas histórias curiosas e engraçadas.

Amanda era uma juíza do trabalho recém-chegada, cujos dias começavam muito cedo e o trabalho se estendia até muito tarde.

Em uma segunda-feira, ela olhou para o relógio e suspirou. Era seu aniversário de casamento e seu marido havia ignorado o fato. Não era a primeira vez, mas desta feita ela ficou realmente furiosa.

O relógio bateu oito horas e o meirinho começou a apregoar as partes:

- Giovanni Rossi! Giovanni Rossi! gritava pelos corredores do fórum. Na vigésima chamada ouviu-se um grito histérico oriundo da sala de audiência:

- Pode parar de chamar porque esse aí já morreu!

Amanda se descontrolou, indagando o advogado sobre o que estaria pensando ao colocar o nome de um falecido como reclamante.

Desconcertado, ele disse que o estagiário que redigiu a peça processual inaugural provavelmente colocou o endereço da parte em substituição ao seu nome.

Enraivecida, Amanda arremessou uma CLT em direção à cabeça do advogado, perguntando se ele pretendia transformar o fórum trabalhista numa anarquia.

- Não, Excelência. Aliás, a senhora é quem está faltando com o dever de urbanidade. E a propósito, mencionou, o falecido Giovanni Rossi coincidentemente foi quem transformou Palmeira em palco da única experiência anarquista na América Latina.

E continuou: tivesse implementado o anarquismo a senhora já teria perdido a função. Explicou ele que este pregava a abolição do Estado e a organização da sociedade de forma igualitária e autogerida pelos trabalhadores. Palmeira era terreno fértil, com seus imigrantes italianos e comunidades de trabalhadores que se sentiam explorados pelo sistema político vigente.

A juíza lamentou o ocorrido, desculpou-se e desmaiou. Foi levada às pressas ao hospital.

Era apenas ansiedade. E, ao acordar, ainda no hospital, foi surpreendida pelo marido que a presenteou com flores e com um livro.

A história do surto se espalhou. Sobrecarga de trabalho, insanidade mental ou o próprio marido podiam ser a causa.

Assim, Amanda percebeu a sua rotina sufocante. E os compromissos com os filhos geravam uma jornada dupla de trabalho.

Tudo foi minuciosamente colocado por ela a seu marido, que percebeu que precisava se dedicar mais à esposa, passando a fazer elogios sinceros e demonstrando mais carinho e atenção.

Contudo, cada vez que se aproxima o seu aniversário de casamento, os advogados trabalhistas ainda têm muito receio de adentrar o fórum.

6 comentários:

  1. Belo texto. Parabéns!!!

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  2. Você escreve muito bem!

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  3. Um caso interessante e muito gostoso de ler. Parabéns!

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  4. Uma mulher ferida em seu orgulho pelo próprio marido desatento é capaz de botar fogo no fórum!

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  5. Parabéns pelo texto! Palmeira tem muitas Histórias.
    Lembro que visitei o museu "Anarquista", organizado pelo professor Arnoldo Bach, e fiquei bastante impressionado com as história. :)

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