terça-feira, 8 de março de 2022

O velho ponta-grossense

Texto de autoria de Marcelo Derbli Schafranski, médico reumatologista, Ponta Grossa.

Publicada no Correio Carambeiense em 12/03/2022 e no Diário dos Campos em 06/04/2022, postada no Portal aRede em 23/03/2022, no Blog da Mareli Martins em 08/04/2022, e no Portal CulturAção em 08/09/2022, lida na Rádio Clube em 08/04/2022.

Nosso último encontro aconteceu na Rua XV de Novembro, mas já não me recordo há quanto tempo. Como de hábito aos domingos pela manhã, deixei o meu apartamento nas redondezas para tomar um café e, ao entrar no recinto, avistei-o casualmente ao fundo, sentado a uma mesa e lendo o jornal. Sempre bem-vestido, trajando desta feita um terno finamente talhado, sapatos de couro brilhante e chapéu. Aproximei-me, sentei-me, demos um aperto de mão e permaneci em silêncio.

Como em outras vezes, aquele senhor começou a me contar suas recordações. Algumas delas eu já conhecia, mas, como bom ouvinte, não lhe interrompi. Estórias repetidas são de valor inestimável, locutor quanto o interlocutor não são exatamente os mesmos da conversa anterior.

Descreveu-me uma Ponta Grossa pretérita, agradavelmente vivida e curtida. Paqueras na Avenida Vicente Machado, sessões de cinema no Cine e Teatro Ópera, domingos de clássico Ope-Guá e bailes de Carnaval no Clube Pontagrossense, com as famílias impecavelmente vestidas. Namoros à distância, até que o amor se provasse real, verdadeiro e eterno. Filho de um médico, descrevia em detalhes fatos dos hospitais São Lucas e 26 de Outubro, em uma época em que se operava sem luvas cirúrgicas. Brincou que se considerava um ponta-grossense originalíssimo, por ter se casado na Catedral e possuir um jazigo no Cemitério São José. Lamentou-se apenas de não poder ter conhecido as belezas naturais da cidade em virtude de um reumatismo que dificultava seu caminhar.

Veio-me uma reflexão: todos conhecemos pessoas como ele, sejam pertencentes à família ou não. Mas não as aproveitamos. Perdemos tempo com frivolidades e deixamos de conhecer a história contada pelos seus próprios protagonistas. Parte da vida é esquecida, memórias se apagam e a tradição se deteriora.

Ao retornar à mesa, percebi que o velho já tinha se ido (gosto do termo “velho”, emana sabedoria, não me importaria de ser chamado dessa forma).

Ao sair, parei para apreciar as inúmeras fotografias em preto e branco expostas na parede do botequim. Uma me chamou particularmente a atenção: a de uma multidão anônima e apressada desembarcando no que hoje se conhece por Estação Saudade. Pessoas que ajudaram a construir uma cidade. Quis acreditar que entre elas se encontravam, além do velho ponta-grossense, meus bisavós, avós e outros familiares. Conversaria com eles mais e melhor, e sobretudo lhes agradeceria pela grande Princesa dos Campos Gerais que nos deixaram como legado.

 

6 comentários:

  1. Texto divino! A contragosto, atendendo aos apelos da fala politicamente correta, tenho substituído o termo "velho" por "idoso", mas não aprecio o efeito. Você tem razão, Marcelo (creio que não se importa com o esse tratamento, uma vez que acolhe de bom grado o politicamente incorreto "velho", segundo alguns), não faltam velhos que são apenas idosos; também não faltam idosos que possuem a sabedoria, sendo distintos por esse predicado. Parabéns, distinto ponta-grossense!

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  2. Os velhos gostam de contar histórias do passado e, muitas vezes, as repetem. Além da gentileza demonstrada em ouvir novamente sem interromper, como disse, a cada conversa os interlocutores não são mais os mesmos assim como o as águas de um rio que a cada minuto são outras. Eu vivi essa Ponta Grossa que você narra muito bem em seu texto. Parabéns!

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  3. Belíssimo texto,compartilho com vc o quanto deixamos passar oportunidades de conversar e aproveitar relatos de pessoas que tanto tem a nos passar!!!!!

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